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19 outubro 2017

FESTAL: Oficina no Pontal da Barra - Final

"Contar para não esquecer quem somos" foi uma das dez oficinas que fizeram parte da programação de formação nas escolas do 3º Festal.
Foram três manhãs de encontros cheios de leveza e aprendizado.
Agradecemos ao Festival das Artes Cênicas de Alagoas - FESTAL pela oportunidade e a Escola Municipal Silvestre Péricles pela recepção e acolhimento.
A festa das Artes Cênicas de Alagoas continua até o dia 28 de outubro. Confira a programação no BLOG oficial!
Viva o Festal!

















26 setembro 2017

Hoje! Última apresentação de "Incelença" no Porão



Terça, Dia 26 tem "Incelença" às 19:30 (pontualmente) no porão do Teatro Deodoro.
O valor do ingresso cabe no seu bolso. 
Venha e pague quanto puder! Será para nós um momento muito importante para reencontrar você e compartilhar da nossa construção.
Agradecemos a Alexandre Holanda e a Diretoria de Teatros de Alagoas – DITEAL que nos concedeu espaço para a construção, as funcionárias (os) do Complexo Cultural e do Porão.
Sinopse:
"Mães fazem morada na ausência dos filhos mortos pela violência. O descotidiano é revivido em uma incelença que ecoa em seus corpos. Um grito de socorro escorre pelas paredes."
Informações:
Incelença é um espetáculo construído em sala de ensaio por: Bruno Alves, Gessyca Geyza, Jefferson Júlio, Jonathan Silva, Nathaly Pereira, Nivaldo Vasconcelos, Rayane Wise, Thiago Amorim e Wanderlândia Melo.
Ficha Técnica:
Direção: Gessyca Geyza
Texto: Bruno Alves
Elenco: Bruno Alves, Nathaly Pereira, Nivaldo Vasconcelos, Rayane Wise, Thiago Amorim e Wanderlândia Melo.
Iluminação e Figurino: Uma construção coletiva
Classificação indicativa: 14 anos
Fotos: Thiago Vasconcelos
Design gráfico: Nivaldo Vasconcelos

29 agosto 2017

Espetáculo"Incelença" volta em setembro

Amigxs
Nosso espetáculo “Incelença” está voltando agora no mês de setembro.
Serão três apresentações que acontecerão dentro do Porão do Teatro Deodoro com lotação máxima para 50 pessoas.
Será para nós um momento muito importante para reencontrar você e compartilhar da nossa construção.
O valor do ingresso cabe no seu bolso. 
Venha e pague quanto puder!
Agradecemos a Alexandre Holanda e a Diretoria de Teatros de Alagoas – DITEAL que nos concedeu espaço para a construção, as funcionárias (os) do Complexo Cultural e do Porão.
Sinopse:
"Mães fazem morada na ausência dos filhos mortos pela violência. O descotidiano é revivido em uma incelença que ecoa em seus corpos. Um grito de socorro escorre pelas paredes."


Informações:
Incelença é um espetáculo construído em sala de ensaio por: Bruno Alves, Gessyca Geyza, Jefferson Júlio, Jonathan Silva, Nathaly Pereira, Nivaldo Vasconcelos, Rayane Wise, Thiago Amorim e Wanderlândia Melo.
Ficha Técnica:
Direção: Gessyca Geyza
Texto: Bruno Alves
Elenco: Bruno Alves, Nathaly Pereira, Nivaldo Vasconcelos, Rayane Wise, Thiago Amorim e Wanderlândia Melo.
Designer Gráfico e Fotografia: Nivaldo Vasconcelos
Iluminação e Figurino: Uma construção coletiva
Classificação indicativa: 14 anos

23 julho 2017

Colabore e conheça a Revista #Textão

Estamos organizando a publicação da #Textão nº3 que estará disponível no mês de setembro.
Você pode colaborar conosco nos enviando seu #Textão sobre experiências, trajetórias e artigos sobre sua vivência em Artes Cênicas.
#ChegueJunto até o dia 04/08 enviando para coletivovolante@gmail.com

Colabore e construa esse espaço conosco!

Veja a última edição da revista em:



21 julho 2017

Prêmio Eris Maximiano: 5º Passo – Complexo Carminha


Eu sabia que seria um caminho longo até chegar ao Complexo Carminha.

Tatiana, Daniel, Douglas, Fátima, Marina, eu e Ulisses.

Peguei o primeiro o ônibus nessa manhã chuvosa. A cidade parecia se esconder da chuva. O trânsito corria tranquilo.


Desci no terminal do Benedito Bentes para aguardar o ônibus que faria a integração com o Conjunto Carminha.

Depósito de coleta de material para reciclagem no caminho


Durante a espera observava o ambiente movimentando do terminal. Resolvi tirar uma foto daquela imagens de pessoas indo e vindo. Assim que tirei a câmera da bolsa os seguranças do local me abordaram perguntando o que eu estava fazendo, quais eram as intenções e me proibindo de fotografar.

"Aqui é um espaço de uma empresa privada. Coletivo só no ônibus".

Todos que usam ônibus sabem o quão precárias e caras são as condições.

Guardeia câmera e por alguns instantes fui tomado por alguma indignação, porém decidi que não deixaria aquela abordagem grosseira atrapalhar meu dia. Segui viagem até o Carminha.

O Benedito Bentes é enorme e o Conjunto Carminha também. É dividido em quatro localidades que somando chegam a 9 mil habitantes. Muito mais gente que alguns interiores do estado.

Recebe o nome Carminha em homenagem a uma líder comunitária que lutou muito durante sua vida pela construção de um espaço com dignidade e direitos para os moradores. Carminha faleceu durante um acidente de carro e a busca por melhores condições de vida continuou/continua.

Eu não poderia ficar pra baixo após a abordagem dos seguranças do local e nem tive como, porque dentro do ônibus um rapaz puxava seu rádio e escutava um pancadão de funk durante toda a viagem.

Passávamos por uma feira que fica no meio de um canteiro da rua.

Perguntei as pessoas onde eu poderia descer para encontrar meu ponto de referência dentro da comunidade. As pessoas foram gentis e me informaram a melhor maneira de chegar até lá.
Cheguei na Casa da Cidadania. Um programa do governo estadual que estimula a comunidade a construir e escolher seus próprios caminhos para a realização da justiça. É um espaço de mediação de conflitos, de educação para direitos e atividades culturais que estimulem a ocupação dos espaços da comunidade com muita arte.

A Casa existe desde maio de 2016 e aos poucos de acordo com as próprias demandas da comunidade vai inserindo projetos e ações que fortaleçam o convívio e o bem estar coletivo.
A comunidade tem uma praça! Agora que ela foi feita a Casa e outras instituições ao redor pensam formas de fazer dela um espaço de convívio. 

Fui recebido por lá por pessoas muito envolvidas e comprometidas: Fátima, Tatiana, Marina, Douglas, Ulisses e Daniel.

Daniel é também um líder comunitário que faz parte da Associação Comunitária do Complexo Carminha. Foi meu primeiro contato através de Debra Isadora.



Enquanto começávamos a conversar dentro de uma sala crianças assistiam a uma sessão de cinema acompanhados pela psicóloga. Na entrada existiam desenhos impressos para que eles pudessem colorir. É um espaço que atraiu em primeiro momento as crianças da comunidade e desde então buscam desenvolver ações que promovam o fortalecimento da cidadania.





Na frente da Casa existe a Escola Municipal Petrônio Viana. Tentei ir com Daniel a escola, mas pelo horário já era momento do almoço.

Fiquei de retornar em agosto para junto com Daniel conhecer mais a comunidade, escolher o local e em seguida voltar para apresentar o espetáculo.

Ainda chovia na volta. Nas redondezas existiam bancas de feira vendendo frutas.

Peguei o ônibus para fazer a integração em direção ao centro da cidade. 

Voltei ao som de funk.

Bruno Alves

Esse projeto foi contemplado com o Prêmio Eris Maximiano de 2015.



19 julho 2017

Prêmio Eris Maximiano: 3º Passo - Grota das Piabas (Jacintinho)

Conheci o Movimento de Humanização das Grotas através de Debra Isadora.


Grafite dentro da sede

Não sabia da existência, mas o movimento existe desde 2002. Entramos em contato com o presidente de lá e marcamos de nos encontrar na tarde dessa quarta-feira.


Robson, o Robinho, como é conhecido, nos recebeu com muita generosidade.


Falamos do projeto para ele que nos pediu mais informações.



Ficamos na sede conversando. Aos poucos uma senhora chegava para pegar um material para fazer uma reforma em sua casa.



"Meu marido será o pedreiro e eu a ajudante".


Os dois iriam fazer a reforma da casa.


"É comum por aqui. Tem gente que levantou a própria casa" - me dizia Robinho em suas palavras.


Levantar a própria casa é tarefa diária. Deixar a casa de pé. Fortalecer as bases que a mantém erguida.


Logo a comunidade receberá um projeto com estudantes de arquitetura da UFAL para fazerem cursos de pedreiros e verem formas de reformar e melhorar suas moradas.


"Melhorar a morada". Pronto! Já entrei em mais um processo de reflexão. Agora estou pensando mais uma vez em morada. Na minha morada. Na minha busca de melhorá-la também. Morada de dentro pra fora.


Arquivo do Movimento

Em Maceió existem 76 grotas.
Fiquei pasmo quando ele me falou o número. Só conheço ao longo desses anos a Grota da Moenda, onde moram  primas minhas e que vez ou outra apareço para visitá-las.


O Movimento de Humanização das Grotas, e olha que nome bonito, busca justamente isso: Tornar mais digna a vida dentro da comunidade.
Robinho e Rayane

Robinho e eu.


Nesse momento eu estou com Rayane em uma das 76 grotas. É a Grota Piabas. Robinho nos falou que esse nome vinha de um açude que tinha perto da região. As pessoas chamavam de o açude das piabas. O suficiente para dar nome a todo o local também.



O movimento nesse momento alcançou mais uma conquista. Terão dentro de seis meses um terreno que será uma área de lazer para a comunidade.

Por coincidência na porta da sede encontramos uma conhecida nossa, a Rose. Rose é filha do morador mais antigo da grota e nós descobrimos isso hoje. Ela estava passeando pela rua com sua filha, que deve ter um ano, e nos falava dá dificuldade de ficar dentro de casa com uma criança sem ter uma praça ou área de lazer. Robinho contou para ela a novidade. A conversa dos dois se deu de uma maneira muito honesta. Ela falava da vontade de poder contribuir com o movimento, pois precisou de um tempo para se dedicar a maternidade.




Do outro lado da rua outra mãe aparece com uma criança dando uma volta pela rua.


A Escola Miran Marroquim fica ao lado da sede. Um muro lindo todo grafitado dá cor e beleza a rua. Foi a nossa primeira e mais forte visão assim que chegamos.




Chovia muito.
Dava uma trégua.
Voltava a chover.


Robinho ficou de marcar conosco mais um encontro para que a gente pudesse descer a grota e poder conversar com as pessoas e escolher o local de apresentação.


Ficamos ansiosos pelo reencontro.


Seguimos nosso caminho de volta e
encontramos nosso amigo Paulo. Queríamos um lugar para sentar. Andamos muito para encontrar uma pracinha. Entendi a dificuldade que Rose me falava. As ruas estreitas e a alta movimentação de carros no bairro eram intensas. A gente queria um lugar para sentar tranquilo e foi difícil de achar. Não fosse Paulo que mora por lá eu acho que teria desistido da busca.

 Por lá rapazes jogavam bola.


Uma senhora puxando seu carrinho vendia sopa, café, torta de chocolate, dentre outras coisas.

Pegamos nosso café com torta de chocolate e sentamos na praça.

Fim de tarde

Quando estávamos sentados eis que ouço um grito:
"Bruno!"


Quando olho estou sentando em frente a casa de Luciana uma vizinha de Viçosa que não via há seis anos. Fiquei surpreso com o reencontro e vendo como "as pedras rolam, mas um dia se encontram".


Por aqui nossos agradecimentos ao Movimento de Humanização das Grotas pela recepção e acolhimento do projeto. Retornaremos em breve para uma nova visita e escolha do espaço cênico.

Bruno Alves

Esse projeto foi contemplado com o Prêmio Eris Maximiano de 2015.




17 julho 2017

Prêmio Eris Maximiano: 1º Passo - Chã de Bebedouro

Volante de praça em praça...
Volante pela cidade!

Volante no dicionário quer dizer aquilo que voa, que tem facilidade de voar, que se desloca facilmente, que não tem residência fixa, que é mutável, móvel, lançado ao ar...

Maceió, a cidade que moro há seis anos, parece ser uma cidade feita para nos fazer parar, mas aqui dentro desse lugar começo cada vez mais a encontrar gente que se desloca facilmente, que é mutável, que mesmo morando aqui não possui residência fixa.

Falar de morada é coisa profunda, pois “onde está teu pensamento, lá está teu coração”, é bíblico isso, não é?

É.

E é bonito.

Vou contar um segredo antes de chegar ao assunto. Quando criança em Viçosa, até por volta dos meus dez anos de idade, morei em uma rua que tinha um grande campo, acabava virando um campo de futebol aberto a todo mundo da rua e é assim até hoje. O mesmo campo era o lugar de se armar as lonas dos circos que chegavam na cidade. Haviam épocas que eram de um lado o circo e do outro a galera jogando bola.

Nessa rua também, durante minha infância, fui vizinho de ciganos. Cresci nesse momento tentando me acostumar com as chegadas e partidas. Meus amigos ciganos e circenses da mesma idade que eu, vinham morar por lá e aos poucos fui entendendo que logo eles não estariam mais ali. O bom disso tudo é que quando se é criança não se pensa muito nessa coisa da partida. O importante era a gente brincando no terreiro: crianças circenses, ciganas e os que já viviam por lá, como eu. Crianças.  Até hoje uma coisa acende em meu peito quando vejo ciganos e quando vejo circo.

Mas essa história que eu contei agora não é só para ressaltar a coisa do nome “volante”. Tem muito mais a ver com o encontro que tive hoje.


Comecei na tarde desse dia 17 de julho a caminhar pela cidade para descobrir as pessoas que ressignificam esse lugar. Essa ida até os lugares é a primeira parte do projeto “Volante de praça em praça” que foi aprovado em 2015 pelo Edital das Artes Eris Maximiano da Fundação Municipal de Ação Cultural de Maceió- FMAC.

Irei visitar dez localidades para conhecer a comunidade, ser afetado pelo espaço, escutar, perceber, conhecer um pouquinho de cada lugar, me sentir pertencente a cidade e transformar isso em cena para o personagem do espetáculo. Assim, ele terá dez histórias de pessoas, ONG, Associação ou qualquer outra forma que exista dentro da comunidade de re-existência. A cada bairro visitado, o personagem contará uma história que trouxe do bairro em que esteve anteriormente. Os bairros conhecerão através dele uma história de um outro bairro da cidade.


Vou muito mais por precisar conhecer mais esse lugar. Meu peito ainda tem muitas resistências a essa cidade, tem dias que ela me sufoca e encontrar gente volante me ajudará a renovar meu olhar sobre ela.

Então comecemos essa jornada.

1º Passo – Primeiras Histórias

Estive na Chã do Bebedouro.

Fui até o mirante para ver o outro lado da cidade e escolher um lugar para apresentar o espetáculo.

Tenho um tio que mora por lá e quase morei quando vim para cá, mas “o amor leva a gente para o lugar que a gente tem que estar” e no meio da quase mudança eu me casei.
Homens sentados nos bancos do mirante jogando dominó. Contei dez, contei quinze e perdi as contas.

Um carrinho vendendo pipocas, guarina, cachaça e água de coco. Tomei guarina.
Duas escolas estaduais.

Um centro de apoio psicossocial.

Uma via principal com carros subindo e descendo o tempo todo.

Visão privilegiada a do mirante.
A lagoa Mundaú abraçava a minha vista. Estava frio. Pouco sol. Alguma chuva e um pôr do sol rosado, delicado como os encontros que tive hoje.

Queria encontrar a casa que foi de Mestre Benon em que brincou por muitos anos com seu Guerreiro Treme-Terra. Eu amo esse nome: Treme-Terra!




Eu lembro como era a casa. Um salão enorme colorido. Soube que após a morte do Mestre a casa ficou abandonada, uma parte foi demolida e o outro pedaço virou um bar.

Ao lado da casa de Mestre Benon existe um campo enorme como o que tinha lá em Viçosa. Haviam adolescentes e crianças improvisando um campo de futebol naquele espaço. Era um grande estádio de futebol.

De frente ao campo existe a Escola Estadual Jornalista Freitas Neto. Conversei com Valdimar e Adriana sobre o espetáculo e solicitei apoio para levar os estudantes a assistir.

Quando saí da escola sentei no mirante e de frente eu via um circo na frente da casa que foi do Mestre Benon. É realmente um terreno imenso.

Fiquei minutos sentado de frente para o circo olhando, sem pensamento exato algum na cabeça, eu estava ali apenas e resolvi entrar no circo.


Uma grande família trabalhava.

Roupas secavam no varal.

Um cachorrinho amarrado na corrente estava de frente a um dos ônibus/casa.

Alguém organizava o equipamento de fritar batatinhas, outro preparava a pipoqueira, do outro lado o carro de som anunciava o circo com entrada de R$5 e R$3 logo mais à noite.

Comecei a conversar com o dono do circo dizendo que pretendia apresentar o espetáculo no bairro mais adiante.

Conversamos por quase duas horas.

Meus olhos brilhavam ao ver aquele homem me contando a história do circo.

É o Circo Sandra (que recebe esse nome por conta de uma irmão sua) fundado por seu pai em 1948 na cidade de Colônia de Leopoldina - AL. É um dos circos alagoanos mais antigos do estado.

Ele e seu irmão Everaldo nasceram e cresceram debaixo daquela lona.

Ele me dizia que aquele era o lugar que se sentia mais protegido. Dentro dessas lonas existia um porto seguro, por fora uma cidade difícil.

Havia muito amor ali. Eu me sentia protegido dentro daquelas lonas. Havia uma outra Maceió naquele lugar.

Falou-me das dificuldades encontradas ultimamente para poder instalar o circo, das cobranças inúmeras de taxas da prefeitura e do constante assédio que sofrem com ameaça de serem despejados. Para se ter noção, a prefeitura cobra para eles as mesmas taxas que cobram a esses grandes circos que passam pela cidade. A diferença é que o grande circo, além de ter patrocinadores, cobra um valor alto e eles não podem cobrar um valor mais justo mediante o próprio público da região que não teria condições de pagar para assistir.


Ouvi muitas histórias do circo.

Contou-me que uma vez o vento veio e derrubou a lona. Contou-me que por ali todos crescem fazendo e se descobrindo em várias funções, inclusive ir para a portaria e vender as guloseimas.

Seus dois filhos hoje são palhaços. Preparavam as roupas. Iam de um lado para o outro.

Reclamou-me da precariedade e da falta de incentivo, mas eu via em seu olhar e em seu discurso o quanto o amor por sua arte era maior que tudo isso. Eles estavam ali de pé, mesmo que a ventania aparecesse para derrubar a lona. Eu via a arte e a vida de mãos dadas.
Logo eles sairão de lá. O susto maior veio quando ele me informou que não retornaria a armar sua lona ali. “Vão construir uma delegacia”.

Fiquei pensativo com essa informação, porque nesse nosso tempo é muito mais valioso investir em delegacias e presídios do que fomentar a cultura e dar acesso as pessoas de terem possibilidades e inspirações para viver. Mais uma delegacia e o risco de termos um espaço a menos de cultura e riso.

O circo vai procurar outro bairro na cidade, outro terreno, antes que sejam cada vez mais escassos os espaços e que só existam prédios e prisões.

Terminei o dia na beira do mirante vendo o sol se pondo e pensando em tudo que foi vivido nessas horas. Deu vontade de ficar mais tempo, de ouvir mais, mas já era o suficiente para o nosso encontro.

Eu vi mãos que levantam lonas em terrenos secos. Corpos que arrancam risos em espaços que aos olhos do estado só servem para levantar prisões.

Voltei para casa mais forte, apesar do baque com as condições que o circo enfrenta. Forte por ver vida e ver vida cheia de poesia e beleza, “belo como o coqueiro que vence a areia marinha”.


 Nós não estamos sós nesse mundo. Nós somos muitos! 

Bruno Alves

Esse projeto foi contemplado com o Prêmio Eris Maximiano de 2015.