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05 fevereiro 2018

"Follia" Treino de Bruno

Esse vídeo faz parte do processo de construção de “Follia”, novo espetáculo do Coletivo Volante, com estreia prevista para 2018 em comemoração aos 4 anos de fundação.
Bruno Alves, Nivaldo Vasconcelos e Rayane Wise iniciam seus mergulhos na construção dessa obra.





07 novembro 2017

Prêmio Eris Maximiano - Últimas apresentações de "Volante"

São cinco meses de caminhada!
Muita gente e muitas histórias encontradas nessa jornada!
No coração desde já um imenso sentimento de gratidão.
Agora é a reta final da circulação de "Volante" pela cidade através do Prêmio Eris Maximiano.
Todxs convidadxs!



26 setembro 2017

Hoje! Última apresentação de "Incelença" no Porão



Terça, Dia 26 tem "Incelença" às 19:30 (pontualmente) no porão do Teatro Deodoro.
O valor do ingresso cabe no seu bolso. 
Venha e pague quanto puder! Será para nós um momento muito importante para reencontrar você e compartilhar da nossa construção.
Agradecemos a Alexandre Holanda e a Diretoria de Teatros de Alagoas – DITEAL que nos concedeu espaço para a construção, as funcionárias (os) do Complexo Cultural e do Porão.
Sinopse:
"Mães fazem morada na ausência dos filhos mortos pela violência. O descotidiano é revivido em uma incelença que ecoa em seus corpos. Um grito de socorro escorre pelas paredes."
Informações:
Incelença é um espetáculo construído em sala de ensaio por: Bruno Alves, Gessyca Geyza, Jefferson Júlio, Jonathan Silva, Nathaly Pereira, Nivaldo Vasconcelos, Rayane Wise, Thiago Amorim e Wanderlândia Melo.
Ficha Técnica:
Direção: Gessyca Geyza
Texto: Bruno Alves
Elenco: Bruno Alves, Nathaly Pereira, Nivaldo Vasconcelos, Rayane Wise, Thiago Amorim e Wanderlândia Melo.
Iluminação e Figurino: Uma construção coletiva
Classificação indicativa: 14 anos
Fotos: Thiago Vasconcelos
Design gráfico: Nivaldo Vasconcelos

06 setembro 2017

Eu, Severina. Por Lili Lucca



Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta...
João Cabral de Melo Neto
Fui ver Volantes, encontrei Severino. E Severino, nos veio com uma conversa cheia de voos. Sim ele é um volante, assim intitulado pelo Bruno, eles tem capacidades de voar e pousar. O Pontal é um dos lugares mais encantadores da capital, já fico em outro estado com tanta poesia que ali habita, a gente desacelera e acalma quando chega o balançar da vida é outro. E batendo palmas, como se estivesse a nossa porta, pra pedir uma água, pra fazer uma pergunta, iniciar um diálogo, Severino se apresenta falante e contente.
Creio que é há sina de todo artista caminhar, sempre em busca de algo, em busca do desconhecido, de sonhos, de vidas, e escavamos todas as possibilidades do nosso ser, precisamos estar em vigia na vida. E Severino começa assim sua caminhada com uma carroça de fitas, pega por onde passa seus elementos que trazem suas memórias, e nelas emoções, medos, alucinações, lições e afetos. E nessa empreitada de andar e encontrar, ele quer o que todos mais querem. A FELICIDADE. E cheio de fé ele nos anuncia e nos pergunta incessantemente.
Onde tá a felicidade? Vocês sabem onde tá a Felicidade? Onde eu acho a Felicidade?
Tem palavra trocada que até hoje é presente na vida da gente, creio que essas são aquelas que atravessam a alma e nos marcam pra sempre e nessa conversa com Severino, nos identificamos. O incansável andarilho sonhador, que pinta o rosto e carrega histórias na carroça encontra com a morte, se ela é real ou não,não interessa ela o desafia e ele como nós jamais desiste da vida e do que ela nos propõem a todo instante. Felicidade.
Embaixo do nosso nariz, em cima da ponte, do nosso lado sentada no sofá, ou dentro de um baú. Sua sina é procurar a bendita felicidade. E quem todo dia não levanta espiando os cantinhos da vida a sua procura?
"Ao caminhar por certas ruas e usar seus lugares públicos, o homem cria suas próprias histórias e mitos; seus passos tornam-se a fala da língua da cidade.Nesse sentido, o espaço não é um lugar definido ou fixo, mas um não-lugar, que se torna vivo através da re-apropriação dos lugares praticados."Cabral.Biange
Volante é aquele que pode ser transportado pra qualquer lugar, assim se realiza essa conversa com Severino, em meio ao seus contos conversamos com nós mesmos. O que mais encanta em Volante é que é um conversa sincera, tem fragilidades sim, mas quem de nós nessa vida não as tem, penso que elas vão no andar do Severino se fortalecer e criar sempre um novo tempo de cena pra ele. Ele que tem muito a contar e receber por onde passar. Espero ir novamente ao seu encontro, anseio que Severino precise de outros espaços, por isso cito Cabral acima. Mas com ou sem a felicidade quero estar presente na busca de me ver novamente na sua cena. Bruno to aqui pra conversar mais da sua cena e avise Severino que espero que ele encontre a felicidade que nos traz.
Por _ Lili Lucca
Volante de Bruno Alves Atuação e Dramaturgia: Bruno
Direção: Nivaldo Vasconcelos Maquiagem e
Produção: Rayane Wise
Figurino e Adereços: Fernanda Vasconcelos, Bruno Alves e Nivaldo Vasconcelos
COLETIVO VOLANTE


31 agosto 2017

Revista Colaborativa #TEXTÃO Nº 3 no ar!


Chegamos a terceira edição.
Acesse aqui:
http://online.fliphtml5.com/eojs/ujgx/



Temos hoje uma revista com mais páginas do que as edições anteriores. Fruto de encontros e de ampliação de nossos diálogos.
Só existe um critério de seleção do material que compõe cada edição: A vontade de compartilhar.
Recentemente tive a oportunidade de vivenciar a primeira etapa do Ateliê de Dramaturgia com Adélia Nicolete na cidade de Recife – PE. Vivendo e finalmente encontrando com Adélia pude perceber como esse processo da publicação da revista dialoga com a “Memória” que estudamos no Ateliê. Guardar processos e experiência é um ato de memória. Guardamos para não esquecer quem fomos e quem estamos nos tornando. Por aqui a palavra guardar talvez não seja a única que contemple esse espaço, pois por aqui nós queremos além de tudo: compartilhar.
Agora chegou o momento de a gente conversar mais de perto com Vinícius Souza, ator e dramaturgo mineiro, que particularmente me provocou bastante com sua oficina de Dramaturgia aqui em Maceió em 2015 (já falei disso no editorial nº1). Esse texto “A faca” que agora acompanha essa edição, foi escrito durante a oficina com ele e de lá para cá a busca tem se tornado mais intensa e com um olhar mais aberto para as outras possibilidades. Vinicius é parte dessa revista, porque sua presença transformou a minha vida. Eu serei eternamente grato a ele.
Falamos sobre festivais e mostras de teatro em Alagoas, afinal, esse próximo bimestre será rico de experiências nesse contexto. Nesta edição Thiago Sampaio Cia Do Chapéu, fala sobre o Festal e a Cia Nêga Fulô/AL apresenta o Festijal - Festival de Teatro para Infância e Juventude de Alagoas
Vamos conhecer um pouco da trajetória da Cia. Teatro da Meia-Noite 15 anos que chega aos seus 16 anos de teatro e a qual foi a idealizadora do Festal que esse ano chega a sua terceira edição.
Através de Joesile Cordeiro vamos conhecer os bastidores da campanha de financiamento coletivo pelo Catarse que movimentou o primeiro semestre do ano e nos ensinou que é possível sim fazer a diferença quando estamos juntos.
Tem artigo de Daniela Beny sobre sua pesquisa de mestrado e temos duas novas seções: A #Verbo com o poeta Magno Almeida e #Agenda com a programação de Artes Cênicas que nos foi enviada por e-mail para esse bimestre.
Vai ter Magnun Angelo falando sobre a importância dos festivais e mostras no #ProntoFalei; Jessé Batista compartilhando a sua experiência com dança; #FicaaDica com Nivaldo Vasconcelos que também compartilha um pouco da experiência de fazer TEXTO EX MACHINA,que completou 2 anos em 2017. Tem #Galeria com fotos de espetáculos enviadas por Alexandra Souza e Thiago Vasconcelos.
Estamos muito felizes por mais uma edição.
Agora só falta você para ampliar cada vez mais esse espaço. Não esquece: Compartilha conosco!
Bruno Alves
coletivovolante@gmail.com
Editorial: Ação coletiva.
Produção desta edição: Rayane Wise, Bruno Alves e Nivaldo Vasconcelos.

29 agosto 2017

Espetáculo"Incelença" volta em setembro

Amigxs
Nosso espetáculo “Incelença” está voltando agora no mês de setembro.
Serão três apresentações que acontecerão dentro do Porão do Teatro Deodoro com lotação máxima para 50 pessoas.
Será para nós um momento muito importante para reencontrar você e compartilhar da nossa construção.
O valor do ingresso cabe no seu bolso. 
Venha e pague quanto puder!
Agradecemos a Alexandre Holanda e a Diretoria de Teatros de Alagoas – DITEAL que nos concedeu espaço para a construção, as funcionárias (os) do Complexo Cultural e do Porão.
Sinopse:
"Mães fazem morada na ausência dos filhos mortos pela violência. O descotidiano é revivido em uma incelença que ecoa em seus corpos. Um grito de socorro escorre pelas paredes."


Informações:
Incelença é um espetáculo construído em sala de ensaio por: Bruno Alves, Gessyca Geyza, Jefferson Júlio, Jonathan Silva, Nathaly Pereira, Nivaldo Vasconcelos, Rayane Wise, Thiago Amorim e Wanderlândia Melo.
Ficha Técnica:
Direção: Gessyca Geyza
Texto: Bruno Alves
Elenco: Bruno Alves, Nathaly Pereira, Nivaldo Vasconcelos, Rayane Wise, Thiago Amorim e Wanderlândia Melo.
Designer Gráfico e Fotografia: Nivaldo Vasconcelos
Iluminação e Figurino: Uma construção coletiva
Classificação indicativa: 14 anos

16 agosto 2017

Prêmio Eris Maximiano: Volante - Primeira agenda de apresentações


Confira a primeira agenda do espetáculo "Volante" pela cidade!


Dom 20/08 às 16h 
Mirante do Alto de Ipioca 

Ter 22/08 às 16h 
Árvore central do terminal de Fernão Velho

Qua 23/08 às 16h 
Mirante da Chã do Bebedouro 

Sáb 02/09 às 11h 
FLI Pontal - Beira da Lagoa Mundaú ao lado do Mercado do Peixe.



23 julho 2017

Colabore e conheça a Revista #Textão

Estamos organizando a publicação da #Textão nº3 que estará disponível no mês de setembro.
Você pode colaborar conosco nos enviando seu #Textão sobre experiências, trajetórias e artigos sobre sua vivência em Artes Cênicas.
#ChegueJunto até o dia 04/08 enviando para coletivovolante@gmail.com

Colabore e construa esse espaço conosco!

Veja a última edição da revista em:



21 julho 2017

Prêmio Eris Maximiano: 5º Passo – Complexo Carminha


Eu sabia que seria um caminho longo até chegar ao Complexo Carminha.

Tatiana, Daniel, Douglas, Fátima, Marina, eu e Ulisses.

Peguei o primeiro o ônibus nessa manhã chuvosa. A cidade parecia se esconder da chuva. O trânsito corria tranquilo.


Desci no terminal do Benedito Bentes para aguardar o ônibus que faria a integração com o Conjunto Carminha.

Depósito de coleta de material para reciclagem no caminho


Durante a espera observava o ambiente movimentando do terminal. Resolvi tirar uma foto daquela imagens de pessoas indo e vindo. Assim que tirei a câmera da bolsa os seguranças do local me abordaram perguntando o que eu estava fazendo, quais eram as intenções e me proibindo de fotografar.

"Aqui é um espaço de uma empresa privada. Coletivo só no ônibus".

Todos que usam ônibus sabem o quão precárias e caras são as condições.

Guardeia câmera e por alguns instantes fui tomado por alguma indignação, porém decidi que não deixaria aquela abordagem grosseira atrapalhar meu dia. Segui viagem até o Carminha.

O Benedito Bentes é enorme e o Conjunto Carminha também. É dividido em quatro localidades que somando chegam a 9 mil habitantes. Muito mais gente que alguns interiores do estado.

Recebe o nome Carminha em homenagem a uma líder comunitária que lutou muito durante sua vida pela construção de um espaço com dignidade e direitos para os moradores. Carminha faleceu durante um acidente de carro e a busca por melhores condições de vida continuou/continua.

Eu não poderia ficar pra baixo após a abordagem dos seguranças do local e nem tive como, porque dentro do ônibus um rapaz puxava seu rádio e escutava um pancadão de funk durante toda a viagem.

Passávamos por uma feira que fica no meio de um canteiro da rua.

Perguntei as pessoas onde eu poderia descer para encontrar meu ponto de referência dentro da comunidade. As pessoas foram gentis e me informaram a melhor maneira de chegar até lá.
Cheguei na Casa da Cidadania. Um programa do governo estadual que estimula a comunidade a construir e escolher seus próprios caminhos para a realização da justiça. É um espaço de mediação de conflitos, de educação para direitos e atividades culturais que estimulem a ocupação dos espaços da comunidade com muita arte.

A Casa existe desde maio de 2016 e aos poucos de acordo com as próprias demandas da comunidade vai inserindo projetos e ações que fortaleçam o convívio e o bem estar coletivo.
A comunidade tem uma praça! Agora que ela foi feita a Casa e outras instituições ao redor pensam formas de fazer dela um espaço de convívio. 

Fui recebido por lá por pessoas muito envolvidas e comprometidas: Fátima, Tatiana, Marina, Douglas, Ulisses e Daniel.

Daniel é também um líder comunitário que faz parte da Associação Comunitária do Complexo Carminha. Foi meu primeiro contato através de Debra Isadora.



Enquanto começávamos a conversar dentro de uma sala crianças assistiam a uma sessão de cinema acompanhados pela psicóloga. Na entrada existiam desenhos impressos para que eles pudessem colorir. É um espaço que atraiu em primeiro momento as crianças da comunidade e desde então buscam desenvolver ações que promovam o fortalecimento da cidadania.





Na frente da Casa existe a Escola Municipal Petrônio Viana. Tentei ir com Daniel a escola, mas pelo horário já era momento do almoço.

Fiquei de retornar em agosto para junto com Daniel conhecer mais a comunidade, escolher o local e em seguida voltar para apresentar o espetáculo.

Ainda chovia na volta. Nas redondezas existiam bancas de feira vendendo frutas.

Peguei o ônibus para fazer a integração em direção ao centro da cidade. 

Voltei ao som de funk.

Bruno Alves

Esse projeto foi contemplado com o Prêmio Eris Maximiano de 2015.



20 julho 2017

Prêmio Eris Maximiano: 4º Passo – Santos Dumont

Talvez esse seja o relato mais difícil para mim.

Santos Dumont é o bairro de Maceió que mais tenho "intimidade". É difícil para mim chegar com o projeto e tentar vê-lo de outra maneira. Tenho algumas histórias com o bairro.




Quando criança vinha nas férias ficar com minhas tias e primas que moram lá até hoje. Logo, vez ou outra estou por lá.

Em 1998, a primeira vez que estive por lá, eu vinha de Viçosa com minha mãe ou minha vó. Andávamos muito da pista até a casa da minha tia. Para mim aquele caminho parecia infinito, mas não era fácil chegar até o destino. O bairro na época não era calçado e quando chovia andávamos no meio da lama.




Era sempre o mesmo ritual. Desceu do ônibus era hora de tirar os sapatos se não quisesse atolar na lama. Voltar era mais difícil, porque os pés estariam sujos e tínhamos que torcer para encontrar água ou leva-lá em uma garrafinha.


Mas a lama não era o problema. Era divertido para mim, criança, pisar na lama. A questão é que nesse período meu pai encontrava-se preso no Presídio São Leonardo. Passamos um ano nessas idas e vindas. Atravessando a lama. Talvez fosse essa a parte mais dolorosa para mim em chegar ali. Ter que atravessar a lama, as grades, ter que atravessar e não saber até quando duraria.


Depois o tempo passou. Esse capítulo aí foi ficando como uma memória doída, até hoje...

Comecei a cursar Hotelaria depois que terminei o ensino médio e minhas tias me abrigavam nas idas e vindas para estudar em Maceió. No começo do curso de Teatro raramente eu voltava lá, porque tinha abrigo na casa de amigas, a Lêu e a Zette, que moram a poucos minutos a pé de onde eu estudava.

Meu primo vem chegando.


Mas agora eu retorno com "Volante" por lá. Queria antes de tudo ter por perto minhas tias, primas e primos. Desejo muito que eles vejam esse caminho que fazem parte, porém, já estou na quarta visita ao bairro e existe uma coisa que não entendo lá no fundo.

É movimentado o bairro. Os famosos "churrasquinhos" atraem muitas pessoas. Aos domingos, quando geralmente passo por lá, a área comercial parece viver um ápice. Muita gente na rua e o cheiro de galeto assado na brasa pela rua para o almoço.

Minha tia me apresentou o senhor Juarez que é presidente de uma das Associações do bairro. A Associação dos Moradores do Santos Dumont - AMOBSAND.



Seu Juarez foi muito atencioso. Falou nos encontros dos avanços que a comunidade alcançou através da organização e da luta. Eu olho para o bairro e vejo como realmente está diferente de quando eu vinha nos anos de 98 e 99.

Caminhei mais uma vez pelo bairro. 

Fui até a Praça mais conhecida do bairro. Estava reformada. Seu Juarez falava da luta que foi para conseguir esse espaço de convivência. Só quem não tem uma praça, ou segurança suficiente para poder ficar tranquilamente nela sabe o quanto é difícil morar em um lugar que não te convidar a estar na rua.

A praça

Vou sempre com calma e termino a visita na casa de minha tia Fátima e minha prima Rafaela tomando café com pão. Conversamos. Colocamos o papo em dia. Rimos. E sigo meu caminho.

Ainda voltarei para mais uma conversa com seu Juarez e passeio pelo bairro.

Sinto imensa vontade de compartilhar por lá essa construção do espetáculo. Talvez a história que busco esteja misturada com a minha história lá dentro dele.

Não há o que resistir. 

Já não existe lama.

Nem grades.



Bruno Alves


Esse projeto foi contemplado com o Prêmio Eris Maximiano de 2015.





18 julho 2017

Prêmio Eris Maximiano: 2º Passo – Fernão Velho



Começar pelo começo.

São 9h da manhã. Subo no ônibus Centro/Rosane Collor para descer no terminal da Colina e pegar outro ônibus que me leve ao meu destino.

Um rapaz sobe e vende chiclete sem açúcar a R$1.

Um senhor sobe e pede ajuda para comprar remédio para sua esposa.

Um outro rapaz sobe vendendo cremosinho (geladinho). Ele desce sem vender nenhum.

Quatro pontos depois um rapaz entra vendendo cremosinho. Espera! É o mesmo rapaz. Ele percebe que entrou no mesmo ônibus. Eu caio numa crise de riso. O ônibus todo ri. O rapaz ri e continua sua cena:
“Estou vendendo DE NOVO cremosinho na promoção. É bom pra saúde, pro corpo e pro coração”.

Mais uma vez ele não vendeu nenhum. Desceu do ônibus e eu fiquei torcendo que até o fim do meu percurso ele subisse de novo.  Seria, digamos, uma cena completa de palhaçaria. Não sei se ele voltou. Eu acho que ele voltou para finalizar sua cena. Eu acho.

Masco chiclete sem açúcar. 

Espero o outro ônibus no terminal da colina.

Tomo café na barraca de uma senhorinha que cuidadosamente me diz que ônibus pegar e onde descer.

“Pegue do outro lado. Se você ficar desse lado vai voltar pra onde veio”.

Recebi o conselho como uma profecia.



Um sapateiro conserta sapatos do outro lado do ponto. Lá está escrito “Rei dos Sapatos”. 
Vossa Majestade protege no seu reino os pés de sua corte.


Havia um bêbado também. Em Viçosa os bêbados se concentram em uma praça. Estão todos os dias lá. Figurinhas conhecidas. Houve um dia que ouvi alguém dizer: “Vou te esperar na praça dos papudinhos”. Papudinho é um termo usado para se referir a alguém que bebe todo dia cachaça.

Estou mais sensível hoje. Parece que sair de casa com o objetivo de parar, escutar e ver me faz perceber melhor a vida brotando nas pequenas coisas.

Esses meus relatos correm afoitos e cegos por vontade de alguma poesia. Eu sei que a realidade, o dia a dia em cada lugar que estou passando é bem diferente, mas estou treinando os meus olhos para enxergar as coisas boas e assim tentarei fazer nessas andanças. Quero o encontro que fortalece, quero muito mais a esperança para caminhar mais forte. Tenho precisado de esperança. E quem não está nesses nossos dias?

Estou descendo a ladeira que dá acesso ao bairro de Fernão Velho. 


Já desci essa ladeira outras vezes. Quando criança vim algumas vezes passar as férias na casa da minha tia que era no Rio Novo. Estive por essa ladeira em outros momentos e conheci a ONG Eu Mundaú que realiza um trabalho lindo na região.

Toda vez que eu desço a ladeira a sensação de coisa boa vai enchendo meu peito. Tem a lagoa como vista e isso é um presente, mas o entendimento do motivo que me trazia paz já na descida da ladeira eu vim entender depois das horas que passei por lá.

Desço no terminal de ônibus. 

Pessoas circulam e esperam no terminal.

Tem uma igreja matriz.


Lençóis no varal.


Pracinha do Padre Cícero do Juazeiro.

Carroça atravessando a rua.



Crianças vindo da escola.

O som do trem anunciando a partida e a chegada.



Árvores grandiosas e lindas.




Uma feira.


Tem gente dando bom dia sem nem me conhecer.

Tem gente sorrindo como se fosse constante a minha presença naquele lugar.
Nunca em Maceió eu sorri tanto para as pessoas na rua.

Começo a entender a sensação que me causa ao entrar no bairro. Eu sei que em muitas coisas me lembra Viçosa. É o ritmo de Fernão Velho que me encanta.

Em Fernão Velho a vida desliza suave como lagoa.

Encontro no meio da praça um tronco cortado com um trono por cima dele. Eu lembro do Rei dos Sapatos, mas sei que naquele trono que ali está qualquer pessoa pode ser rei ou rainha.


Fernão Velho tem cadeiras espalhadas pela rua. Cadeiras mesmo para quem quiser sentar e tomar uma “fuga”. Aos poucos senhores chegam, sentam, conversam, alguns bebem, outros só observam a rua acontecendo.

"Para e senta um pouco!"


Fui na escola Pedro Cabral e na escola Herminio Cardoso conversar com a  direção e apresentar o espetáculo. Encontrei no chão na subida para uma das escolas um panfleto do Circo Sandra. Convidando os estudantes e a comunidade. Eram os reencontros acontecendo.

Reencontro

Mas tem uma coisa que me chamava atenção no bairro há muito tempo e hoje foi o dia de me aproximar. Lá existe um lugar chamado Big Brother. Um bar, eu pensei. Mas é mais que isso.

Não tem Pit-bull.


Passando pela frente existem várias bonecas, discos, orelhões, dentre outras coisas penduradas nas árvores e em um muro. Eu fiquei “passado” com aquilo tudo organizado de uma maneira que para mim é visualmente muito interessante. Algum momento deu medo, mas quando me aproximei fiquei apaixonado.









No portão estava escrito “Cuidado Pit-bull”. Tentei observar e não via pessoas e nem o Pit-Bull. Reparei que havia um senhor sentado assistindo TV, tomando uma cervejinha. Pedi para entrar e para ele prender o Pitbull, que obviamente não existia. 





Não era o dono do lugar, era o “Seu João”, amigo do dono.

- Aqui é um bar, Seu João?
- Não. Um bar não. Mas quem quiser pode sentar aqui para beber – dizia-me.

Comecei a fotografar o espaço e em seguida Seu João me levou a casa do dono, que fica em frente.



Seu Toinho, o criador daquele espaço, devia estar tirando um cochilo quando o encontrei, mas foi super gentil e dócil. Uma das pessoas mais simpáticas que já conheci. 




Ele me apresentou câmeras, telefones, rádios e outras antiguidades que guardava em sua casa. Desde criança tem paixão por colecionar coisas antigas. Aos poucos o espaço “Big Brother” se tornou um local em que as pessoas também levam antiguidades ou móveis e coisas que queiram se desfazer para seu Toinho organizar, harmonizar e embelezar a rua.





Há alguns anos quando passei rápido por lá com minha sobrinha ficamos viajando que aquele lugar seria um castelo de princesas e que pela noite as bonecas se transformavam em crianças e iam brincar na rua. Ela me dizia que havia uma bruxa por lá também transformando as crianças em bonecas.

Assim eu viro fitness.


Seu Toinho tem um bar, mas não é o espaço Big Brother, o bar fica na garagem de sua casa. No Big Brother as pessoas vão para beber, conversar... As vezes compram a bebida no Seu Toinho, mas se trouxer a bebida de casa também pode sentar por lá e prosear.

"Se usar o gás tem que pagar"



Eu ficava ali criando leituras daquele espaço. Lembrava de Bispo do Rosário, lembrava dos textos que li no Blog da Adélia Nicolete sobre Dramaturgia do Descarte. Eu estava ali diante de um lugar cheio de possibilidades.

“O povo vem aqui e deixa as tranqueiras pra ele” – comentava seu João.

Eu, assim como Seu Toinho, tenho profunda admiração e atração por tudo que é descartado, jogado fora... Aliás, o espetáculo “Volante” nasce daí também.
Seu Toinho foi um big brother que encontrei nessa manhã. Um volante guardador de histórias. 

Seu Toinho "duchampiando"








Falei da peça e ele me disse que iria assistir.

Seu Toinho e eu. Registro feito por " Seu João".





Tive que ir embora. Tinha que pegar o trem, que por sinal é o meio de transporte mais usado no bairro, pelo menos para os estudantes da redondeza.

Fui andando e me perguntando: 
"Por que eu não moro aqui?"

Eu perdi o trem, mas não tinha problema algum. A manhã tinha sido linda o suficiente para ficar mais alguns instantes vendo aquela dança, aquele fluxo de lagoa ali na minha frente, 

dentro de mim.

Bruno Alves

Esse projeto foi contemplado com o Prêmio Eris Maximiano de 2015.