08 maio 2015

Solar (4º Encontro)

   O nosso quarto encontro aconteceu junto com a turma do 7º período de Teatro Licenciatura da UFAL. Os estudantes estão em processo de Montagem Cênica e Karina é monitora da disciplina.


Foto retirado da página do Solar: Laboratório de Meditação

   Outro espaço, novas e conhecidas pessoas. Novas dimensões. Foi dia de trabalhar a loucura de cada personagem. Severino, Volante, seria um louco? Há momentos em que revela que sim. 
Foto retirado da página do Solar: Laboratório de Meditação

   Perseguir a felicidade e caminhar pelo mundo buscando histórias é a sua maior loucura. Em algum momento eu me pergunto se ele realmente saiu do lugar, em outros eu me pergunto se ele inventou e se realmente tudo está acontecendo naquele momento. Uma loucura que parte do processo de criação ao admirar a estética de Bispo do Rosário e encontrar nos catadores de material reciclado de Maceió uma proximidade com a beleza e loucura de reconstruir o mundo.


Foto retirado da página do Solar: Laboratório de Meditação

   A primeira meditação pedia que respirássemos de forma diferente. Devia ter na sala umas onze pessoas. Respirávamos emitindo som e fazendo movimentos de abrir e fechar os braços flexionados em direção ao rosto e isso causava em mim certa tontura por perceber o fluxo do oxigênio aumentando no meu corpo.


Foto retirado da página do Solar: Laboratório de Meditação

   Na segunda meditação era preciso continuar de olhos fechados e trabalhar a loucura dos personagens, a forma de andar e estar no mundo de cada um deles. Meu corpo respondia ativo as lembranças de Severino e aos poucos ia experimentando novas formas dentro daquele universo do personagem. De repente, consegui fazer um movimento de andar e flexionar os joelhos, isso me doía muito quando tentava fazer anteriormente, mas naquele momento era prazeroso. Sentia vontade de girar, agachar e rir, rir muito. Estar rodeado por mais pessoas causava um medo de trombar e acabar machucando, pois estávamos de olhos fechados e o corpo parecia não resistir ao movimento. Quando eu batia em alguém durante a meditação eu me desconcentrava, mas não abria o olho e continuava, porque já não podia perder aquele momento de descoberta e entrega.


Foto retirado da página do Solar: Laboratório de Meditação

   Chegamos a terceira meditação e de olhos fechados erguíamos e sacudíamos as mãos em pequenos pulos repetindo um mesmo som, enquanto respirávamos. Durante um tempo precisei parar e respirar sem os movimentos, para assim, dar continuidade. Meu corpo respirava. Minha voz estava aquecida. Alguns momentos vinham tonturas, mas a sensação de bem estar era melhor.
   A última meditação foi para silenciar. Respirar deitado no chão e perceber o sangue circulando no corpo. Estava num estado de tranquilidade e com a mente e o corpo ativo. O que mais me deixa curioso nesse processo de meditação é como fico disposto, como chego em casa ainda com vontade de me movimentar mais. Sei que é preciso parar e descansar o corpo, mas quando medito eu fico relaxado, porém pronto para mais atividades físicas.


Foto retirado da página do Solar: Laboratório de Meditação

   Começamos um processo em grupo em que cada vez que fosse citado o nome de um participante esse se jogaria no chão e teria que ser segurado pelos outros, antes que chegasse ao chão. O processo se repetiu quando citava o nome dos nossos personagens.


Registro de Karina May

   Fomos divididos em grupo e as pessoas que contracenavam juntas deveriam trabalhar ações físicas que levassem ao sentimento da personagem. Vi um casal que mantém uma relação de amor e ódio trabalhar no corpo esse atrair e repulsar o outro através da força física de ambos, para então, tornar isso orgânico no corpo e na voz.


Foto retirado da página do Solar: Laboratório de Meditação

   Realizei meu exercício com o grupo que faz o coro do espetáculo e tínhamos que criar uma energia coletiva. Fizemos exercícios de imitar o gesto do outro e em seguida em círculo deveríamos deixar que esse movimento surgisse sem um líder e de forma orgânica entre o grupo. Aos poucos entendíamos e percebíamos o corpo querendo saltar em um movimento e os outros iam seguindo o mesmo fluxo. Foi difícil chegar num fluxo relativamente comum, mas com a prática eu percebi que poderia se chegar nesse lugar e certamente renderá um sintonia incrível ao grupo em sua montagem, já que todos(as) deverão ter o texto dito no corpo ao mesmo tempo.


Registro de Karina May


   Solar: Laboratório de Meditação está a serviço do ator e atriz na sua construção do personagem. Breve estarei apresentado “Volante” e sinto que uma nova energia está solta, aliás, próxima, dentro e misturada em mim.

04 maio 2015

"Encontro Giratório" Movasse Coletivo de Criação (MG)

   
   Dançar ou não dançar, eis a questão.

Extraída da página do facebook Artes Cênicas SESC AL

  O grupo Movasse Coletivo de Criação (MG) trabalhou no dia de hoje (04-05) a Colaboração na Criação em Dança.
   Não sou bailarino, mas descobri que danço. Essas oficinas com os grupos de dança que estão passando por Alagoas pelo Palco Giratório do SESC me fazem entender que todo ser humano é um potencial ser que nasceu para dançar, basta querer descobrir e se empenhar.
   O grupo trabalhou a questão da observação dos movimentos e de como nosso corpo se porta diante da ação. Buscaram em nossas ações o desenvolvimento da qualidade do movimento e da objetividade na realização.
   Começaram a oficina querendo entender os nossos corpos e o que poderia extrair de cada um deles. Quando cheguei à oficina acontecia um movimento que parecia uma construção coreografia. Sou péssimo em coreografia, fico sempre preocupado com a execução e acho que sempre estou indo para o lado errado, mas vivenciar aquela experiência foi uma oportunidade de se permitir.
Foto extraida da página do Movasse Coletivo de Criação

   Depois o comando era correr em trio aumentando a velocidade e correndo de costas. Percebi que não observava a minha coluna e a intenção era correr com as costas e não ombros. Com a repetição fui entendendo e observando melhor essa questão. Realizamos esse exercício em dupla e tivemos que em diagonais diferentes encontrar nossa dupla, focar o olhar, girar e continuar correndo de costas até parar, descer e deitar no chão, subindo corretamente com um salto só.
   Houve um exercício no qual em duplas deveríamos manipular o corpo do nosso colega que responderia aos estímulos que dávamos com a força de nossa mão em alguma parte do corpo dele(a).
Extraída da página do facebook Artes Cênicas SESC AL
   Houve um exercício no qual na roda deveríamos buscar um corpo estranho. Dançar de uma forma que não costumávamos. Em seguida um ia a roda e dançava e o outro deveria entrar também na roda e construir junto com o que lá estava uma dança estranha na mesma energia.
   Em outro momento nos pediu para que nos movimentássemos do jeito que gostamos. Nessa hora me deu um branco e fiquei sem saber como eu gostava de me movimentar. Aos poucos fui me soltando e realizando os comandos de expandir e diminuir o movimento.
   Na segunda parte nos sugeriram que criássemos uma sequencia de movimentos obedecendo dez indicações: “Entrar em cena”, Correr, Deslizar na parede, Olhar para um ponto, Deslocar-se, Esconder-se, Pausar, Pular, Usar a voz de alguma forma e finalizar a sequência. Era preciso ser objetivo na sequencia. Apresentamos duas vezes e em seguida tivemos que escolher três movimentos de algum colega que nos chamou a atenção e usar em nossa ação no lugar de três das nossas escolhas. Iniciou um processo de limpeza do movimento e busca pela qualidade. Fomos divididos em dois grupos de 5 e 4 pessoas e deveríamos repetir várias vezes a sequência interferindo no caminho do outro, criando assim, um diálogo com o espaço, nosso corpo e corpo do colega.

Extraída da página do facebook Artes Cênicas SESC AL

   Foram poucas horas de oficina para entender o processo do grupo, mas o que deu para vivenciar me possibilitou entender mais do meu corpo e observa-lo enquanto realizo uma ação artística, buscando com isso um corpo vivo e uma presença plena no palco.

Bruno Alves

03 maio 2015

"Encontro Giratório" Catibrum Teatro de Bonecos (MG)

   
Foto extraída do perfil do grupo Catibrum T de Bonecos
    Teatro de Bonecos não é um ofício fácil.
   Começo esse texto ressaltando isso, porque vivi na pele, na mente e no osso o processo de criação e preparação do Grupo CatiBrum Teatro de Bonecos de Minas Gerais.
   O grupo existe há vinte e quatro anos e desde então vem desenvolvendo um trabalho importante e fortalecedor do teatro de bonecos no Brasil.
   A oficina que aconteceu pelo Palco Giratório no circuito do SESC AL ocorreu nos dias 02 e 03 de maio e teve como instrutores uma parte dos membros do grupo: Rooney Tuareg, Camilla Borges, Beto Militani e Leandro Marra.
   Iniciamos no sábado com uma roda de apresentação das pessoas que vivenciariam a experiência. Entendemos da história do grupo e da história das pessoas envolvidas. Evidenciamos ainda a nossa curiosidade e necessidade de conhecer mais sobre esse universo.

Foto extraída do perfil do grupo Catibrum T de Bonecos

   “O importante são as perguntas”, dizia Beto nos incentivando a vivenciar todos os momentos e seguir com as perguntas que nos movem, mesmo que as respostas demorem ou não apareçam.
   O primeiro jogo proposto pelo grupo foi um que envolvia concentração e coordenação motora. Trabalhamos em círculo o passar e receber das energias da roda através de estímulos sonoros e corporais.
   Tivemos um momento em que Beto realizou um alongamento de preparação do nosso corpo. Iamos dos pés a cabeça acordando, alongando e deixando o corpo alerta. “CORPO ALERTA” tornou-se palavra de ordem. Nesse exercício foi possível destacar o cuidado que ele observou que devemos ter com os nossos pés e a importância de dar mais atenção a essa parte do nosso corpo. São eles que sustentam a nossa casa e precisariam ser alongados, já que em parte do tempo comprimimos dentro de um sapato que tenta dar uma nova forma a eles. Enquanto, Beto ia dando as instruções os outros facilitadores se aproximavam e nos ajudavam a corrigir a postura do nosso corpo. Era preciso preparar a coluna, as pernas, a região da pélvis... Era preciso estar alerta.
   Era notável no corpo a diferença causada, a dor que surgia em algum lugar e o incomodo com parte dos alongamentos. Meu corpo certamente estaria estranhando aquela nova informação que recebia. Orientou-nos a sempre deixar pelo menos vinte segundos alongando cada parte, pois seria tempo do corpo processar a informação.
   Rooney seguiu a nossa preparação trabalhando questões da respiração diafragmática e do aquecimento vocal. Preparamos o rosto, a articulação da boca e em roda fizemos exercícios sonoros.
   Camilla continuou a preparação trabalhando pelo espaço os movimentos diferenciados dos nossos pés em contato com o chão. Propôs-nos um exercício de respiração que exigia muito esforço corporal. Dava para sentir de bruços em contato com o chão o esforço que nosso corpo fazia para expandir o ar na região diafragmática, enquanto tínhamos pés e mãos suspensos.
   Leandro realizou um jogo em trio, no qual tínhamos que encaixar nosso movimento na imagem construída pelos nossos companheiros, desde que não fechássemos a sua possibilidade de deslocamento, porque sairíamos da imagem paralisada a cada comando individual que ele indicasse.
   Mas onde estavam os bonecos?
  Nós que pensávamos (pelo menos eu pensei) que assim que chegássemos entraríamos em contato com eles, tivemos que entender que para se chegar à ação era preciso preparar o corpo, a voz e a mente. De repente, Leandro aparece com um boneco pequenino em suas mãos. Aquela imagem começa a mexer e me envolver numa fantasia que não entendia. Estava acreditando naquela ação. O boneco que Leandro utilizava era feito com luvas, apenas as luvas sem nenhum detalhe ou adereço. Fiquei encantado com aquela transformação e animação daquele objeto, agora transformado em boneco.
   No fim da tarde tivemos o primeiro contato com os bonecos. Estes eram feitos com tecidos e amarrados com barbante nas pontas formando as mãos e pés e no meio das mãos um nó que formava a cabeça/nariz. Rooney alertou para que tivéssemos atenção com o nariz, pois esse seria os olhos do boneco. Trabalhamos a questão do foco, dos direcionamentos que o nariz indicava e a questão do eixo para deixar o boneco em pé. Leandro indicava em nossa frente direcionamentos.

Fotografia de Claudete Lins

   No dia seguinte, após o processo de alongamento corporal e vocal de Beto e Rooney, voltamos a entrar em contato com os bonecos de tecido. Deveríamos criar uma história com ele. Esse boneco era animado por três pessoas, um ficava com a questão do eixo (cabeça e coluna) e os outros animavam as mãos e pés. No segundo contato com esse mesmo boneco fomos criando uma melhor desenvoltura, pois os facilitadores da oficina alertavam que o segredo está no ensaio, na repetição e na busca pela precisão dos movimentos. Dessa vez ficamos na frente do espelho, mas como já havia sido orientado não era uma boa opção, pois nesse caso o espelho atrapalha, porque a atenção deve ser voltada para o boneco. 

Foto extraída do perfil do grupo Catibrum T de Bonecos

   Apresentamos ao grupo, fomos avaliados e avaliamos a desenvoltura dos nossos colegas. O grupo fazia suas considerações a respeito das apresentações das cenas curtas. Esses momentos de avaliação foram ricos em debate sobre dúvidas que trazíamos.
  Na última parte da oficina fomos apresentados aos bonecos articulados do grupo. Esses bonecos eles produziram para exercício durante as oficinas, mas sua estrutura parte do mesmo principio com os quais eles produzem seus bonecos em muitos espetáculos, inclusive “O som das cores”. 

Fotografia de Claudete Lins

   Visualizei um trabalho artesanal rico em acabamento e detalhes. Esse boneco tinha as articulações do corpo bem trabalhadas e possibilitariam um maior trabalho e precisão nos detalhes das ações.
   Tivemos contato com eles e em trios tivemos que entender seu funcionamento em nossas mãos. Era diferente, porque agora tínhamos uma figura que representa o ser humano e assim, o cuidado na execução só aumenta. Roney nos falava que é preciso acreditar no que está fazendo para que o público entre junto na viagem. Ele ficava na frente dando os direcionamentos para que fizéssemos juntos o boneco ganhar vida.
   Foi a parte mais difícil da manipulação. Executar detalhes humanos como: sentar, ajoelhar, coçar, dentre outros, não foi fácil. Passamos no grupo que participei maior parte do tempo entendendo como fazê-lo ajoelhar. Falando pode parecer fácil, mas em grupo e tendo o cuidado nos detalhes não se torna fácil. É uma tarefa que exige uma prática constante.
   Apresentamos, avaliamos, fomos avaliados e partilhamos da gratidão pelos dias vividos.
  Essa oficina foi uma experiência muito importante para entendermos que a manipulação direta exige muito trabalho do ator e atriz e que a base dessa criação é comum em todo o fazer teatral, como a questão da preparação corpóreo-vocal.
  Outro ponto que não esquecerei foi visualizar e vivenciar as possibilidades que existem para a manipulação. É possível tornar uma luva ou um tecido em um boneco, basta à prática e o cuidado com os detalhes. São importantes os detalhes, pois às vezes um coçar as costas do boneco torna a cena de uma beleza inacreditável, porque parece que quando assisto um boneco estou procurando e acreditando na imensa humanidade que ele carrega em si ou que na ponta dos dedos que o carregam e na força dos braços ele é carregado cheio de vida e energia que o faz vivo, mágico e encantador.
   O momento agora é de se perguntar, refletir e processar as informações recebidas e talvez a primeira pergunta que se estabeleça em minha cabeça já seja sobre as inúmeras possibilidades de manipulação de bonecos que possam estar bem próximas de mim.
   Esses momentos nos ampliam a visão sobre o fazer teatral, sobre a prática dos grupos e sobre as possibilidades que nos cercam.

Foto extraída do perfil do grupo Catibrum T de Bonecos

   Catibrum Teatro de Bonecos apresentará amanhã seu espetáculo “O Som das Cores” no SESC Centro às 20h e parte em seguida para mais uma etapa do Palco Giratório pelo Brasil. Ficam aqui conosco e em cada trabalho que viermos fazer daqui pra frente, porque o que foi compartilhado dentro da sala da oficina é processado e utilizado ao longo da vida e prática teatral, assim a gente queira. Assim eu quero, assim eu acredito.
Voltem sempre por aqui!


Gratidão!