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09 dezembro 2019

Críticas da Aldeia Maceió na Revista #Textão 8!

Você participou da Aldeia Palco Giratório do SESC - AL que aconteceu em Maceió em maio desse ano?
Então vem conferir as críticas que rolaram por lá!
Felipe Benicio, Joelma Ferreira e Lili Lucca do Filé de Críticas teceram olhares sobre os espetáculos que passaram por lá e está tudo registrado na #Textão 8!
Veja AQUI!



31 março 2018

Temporada de "Incelença": Precisamos Agradecer!

Precisamos agradecer!
Somos um coletivo independente de teatro que teve origem em Maceió em janeiro de 2014. Não possuímos apoio governamental ou privado. Nossa vontade e a presença do público é que dá sentido a toda essa nossa busca e construção.






"Incelença" é o nosso segundo espetáculo, feito da união, força e presença de atrizes do Grupo Clowns de Quinta e do Coletivo Hetéaçã. Nos juntamos, porque juntxs somos mais fortes.
O teatro é o nosso instrumento de encontro e ampliação de diálogos.


O teatro nos fortalece e nos mantém de pé no meio desse turbilhão de injustiças e desigualdades. O teatro nos dá voz e essa peça quer possibilitar dar voz a um lado que quase nunca é ouvido. 


Foram quatro dias de apresentações do espetáculo "Incelença". Sabemos as lutas que travamos internas e externamente para poder fazer acontecer esses quatro dias.
Você veio. Respondeu ao chamado. Testemunhou conosco. Somo gratos a esse público diverso que veio durante os quatro dias e também nesse último feriado. Quando você vem alimenta a nossa caminhada. Você não é só um ouvinte, mas uma testemunha que compartilha conosco essa discussão.

Agradecemos também a UFAL e a Coordenação de Assuntos Culturais, na pessoa do Professor Ricardo Cabús, que nos recebeu e abriu as portas do Espaço Cultural para a realização da temporada.
Temos muito o que denunciar. Temos muito a falar. 


O teatro é a nossa maneira de estar no mundo, de questionar esse mundo em que vivemos, de responder aos que tornam ele sombrio. Não podemos parar de fazer. Tudo ao redor conspira para que a gente desista, para que a gente se cale e o nosso dever é gritar mais alto. Resistir. Denunciar. Usar essa nossa linguagem para questionar essas estruturas.
Gratidão a você que fortaleceu esse espaço. Que ele se amplie em você e em nós. Que possamos chegar a mais pessoas e outros espaços.


Estaremos de volta com "Incelença" no Projeto Palco Giratório no dia 04 de abril, às 20h no mesmo local. Entrada Franca!
Prestigie toda a programaçao do Palco Giratório que vai de 01 a 07 de abril. É uma realização do SESC que fortalece a difusão, ampliação de diálogos, formação de plateia e resistência.  Esse espaço é muito importante para as Artes Cênicas.
Agradecemos desde já ao SESC pela oportunidade de apresentarmos "Incelença" nessa edição local do Palco Giratório e misturarmos nossos corpos e sotaques com grupos locais e de outros estados do país.

Gratidão!

Coletivo Volante de Teatro

Foto montagem de Nivaldo Vasconcelos.

Vai começar o Palco Giratório em Maceió!







Consolidado no cenário cultural brasileiro, o Palco Giratório 2018 chega a Maceió no período de 01 a 07/04 promovendo diversas manifestações culturais, indo além de entretenimento. Sua essência se caracteriza na valorização ao artista, ao debate, a reflexão e o diálogo entre criadores e espectadores, promovendo o intercâmbio, a democratização ao acesso à cultura e a formação de plateia.

Nesta 21ª Edição, nas capitais e no interior do País, serão 625 apresentações artísticas por meio do teatro, dança, circo, intervenção urbana, performance, e mais de 1.600 horas de oficinas, além de debates e mesas-redondas. Dois grupos artísticos de Alagoas participam pela primeira vez como indicados para a circulação nacional: Cia dos Pés de Maceió, e a Turma do Biribinha de Arapiraca.

Em Maceió, o projeto ficará por sete dias com espetáculos dos mais variados gêneros de artistas do Rio de Janeiro, Paraná, Sergipe, Pernambuco e Alagoas.

As apresentações serão gratuitas, realizadas entre espaços públicos e fechados. Para os espaços fechados, as senhas serão entregues uma hora antes de cada apresentação, com limitação conforme acomodações dos espetáculos e espaços.




Programação:


AÇÕES FORMATIVAS
*Inscrições gratuitas na Coordenação de Cultura – Sesc Centro 3201-1376

Data
02 e 04/04  Sala de Dança do Complexo Cultural - Teatro Deodoro Triste Figura Oficina Grupo Teatral Boca de Cena – SE Para atores e não atores
Horário:das 10h às 14h
Local:Sala de Dança do Complexo Cultural - Teatro Deodoro
Título:Triste Figura
Ação:oficina
Grupo:Grupo Teatral Boca de Cena – SE
Público-alvo:Para atores e não atores
Duração: 8h

04/04
Horário: 16h
Local: Musicoteca – Sesc Centro
Título:Na margem da Cidade
Ação:Pensamento Giratório
Grupo:Cia Marginal – RJ
Público-alvo:Público em geral
Duração: 1h


Horário:05 e 06/04
Horário: 10h às 14h
Local:Teatro de Arena
Título:Segunda pele
Ação:Oficina
Grupo:Coletivo Lugar Comum - PE
Público-alvo: Maiores de 18 anos
Duração: 8h

07/04
Horário:das 10h às 17h
Local:Sala preta (Espaço Cultural – Praça Sinimbu)
Título:Cartografia do instante: treinamento para performace
Ação:Oficna
Grupo:Flavia Pinheiro – PE
Público-alvo:Para dançarinos
Duração: 06h


APRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS

Avelha
Ivana Iza -AL
Teatro/70 min/12anos
01/04, 19h, Sala Preta, Espaço Cultural – Praça Sinimbu
Sinopse
Através do tema da velhice, a peça trata de questões ligada à memória, ao esquecimento e à imaginação. Em cena, Ivana interpreta uma atriz que, envelhecida, vê a si mesma solitária e confusa, a rememorar sua carreira como atriz e a relação com o filho, enquanto comenta sobre o envelhecer do corpo do artista e as suas relações familiares.

Concerto em Ri Maior
Cia dos Palhaço - PR
Circo/70 min/Livre
02/04, 19h, Arte Pajuçara
Sinopse
Uma comédia musical que surgiu em 2005 a partir de jogos de improvisação do palhaço com a música. No espetáculo, o maestro e palhaço Wilson Chevchenco apresenta um concerto baseado em sua origem russa e conta com a ajuda de Sarrafo, seu fiel amigo, para executar as obras de sua família e ser compreendido pela plateia, já que não fala o idioma português.

Os cavaleiros da triste figura
Grupo Teatral Boca de Cena – SE
Rua/60 min/Livre
03/04, 16h, Estacionamento do Complexo Cultural Teatro Deodoro
Sinopse
O espetáculo Os cavaleiros da triste figura é o resultado do encontro cênico do Grupo Boca de Cena e seus colaboradores, com a literatura de Miguel de Cervantes. Livremente inspirado em Dom Quixote de La Mancha, a história que pretende-se retratar, extrapola a literatura e se contamina por toda a realidade circundante, em forma de sonho (ou delírio). Sediado no bairro do Bugio, periferia de Aracaju, SE, no nordeste do Brasil, esse coletivo teatral contradiz o duro normativo da realidade e ergue com recursos próprios a sua sede, onde realiza suas atividades teatrais, construindo fábulas e compartilhando-as com o entorno proletário. Nesses termos, a temática definida para a respectiva produção, não denota apenas uma escolha mas um encontro conceitual. Trata-se de um espelhamento artístico onde Dom Quixote ilumina o Boca de Cena ao mesmo tempo que o grupo espelha e atualiza o texto clássico em todas as suas instâncias, dentro e fora da cena. Neste Dom Quixote, denominado Os cavaleiros da triste figura, um grupo de atuadores, em praça pública, insiste em instaurar suas histórias. Desfazendo-se e reinventando-se a cada golpe, permeados por loucuras e delírios, personas alimentam um desejo excêntrico, cada vez mais desacreditado: transformar o mundo!

Segunda pele
Coletivo Lugar Comum - PE
Dança/70 min/16anos
04/04, 18h, IPHAN – Jaraguá
Sinopse
Quantas peles habitam nosso corpo? Pêlo, casca, casa, cidade, olhar, pudor, prazer, cortes, avessos, toques, sorrisos, sons, leite, vento, chuva, memórias. O espetáculo Segunda Pele leva para cena corpos em troca de peles, em transformação, em desnudamentos. Movimentando entendimentos sobre a diversidade de corpos, pelas infinitas possibilidades do ser, e por tudo que ainda precisa ser discutido sobre padrões vigentes em nossa sociedade. Peles que escamam ao longo da cena, revelando histórias, corpos e experiências de vida das quatro dançarinas do elenco. Criado em 2012, o espetáculo foi recriado em 2016, com nova pele, novas vestes e novos desnudamentos em cena, ampliando o mergulho experimentado na montagem anterior.

Incelença
Coletivo Volante – AL
Teatro/50 min/ 14 anos
04/04, 20h, Espaço Cultural – Praça Sinimbu
Sinopse
A partir dos dados do Mapa da Violência em Alagoas, o Coletivo mergulha na história de mães que perderam seus filhxs.
Corpos de atrizes e atores são instrumentos de propagação dessas histórias.

Eles não usam Tênis Naique
Cia Marginal – RJ
Teatro/75 min/14 anos
05/04, 19h, Sala Preta, Espaço Cultural – Praça Sinimbu
Sinopse
Ambientado numa favela do Rio de Janeiro, ELES NÃO USAM TÊNIS NAIQUE narra o reencontro de um pai e uma filha que não se viam há muitos anos. Ele foi traficante nos anos 80, quando o comércio ilegal de drogas ainda mantinha um vínculo moral com a comunidade, ela é uma jovem traficante nos dias atuais. O espetáculo gira em torno de um embate ideológico entre os dois personagens, representados em cena por quatro atores que se alternam sucessivamente nos dois papeis, num jogo cênico em que nenhuma posição é fixa e onde a ficção está sempre sob o risco da realidade.


Como manter-se vivo
Flavia Pinheiro – PE
Dança/50 min/livre
06/04, 19h IPHAN – Jaraguá
Sinopse
Como manter-se vivo? investiga a urgência de permanecer em movimento como um procedimento de sobrevivência. Um questionamento de como nos relacionamos com a imaterialidade das relações propostas pelos dispositivos e a certeza da nossa impermanência. Como continuar em movimento? Como resistir ao desequilíbrio e a instabilidade da existência? Como persistir no tempo? Uma prática circular que por não desistir sucumbe a falha eterna e inerente da matéria. O colapso da própria vida/arte na ausência de um perspectiva de futuro do fazer/ser em dinâmica em uma conjuntura estática, monitorada, programada….até o dia em que os robots incorporam melhor que nós humanos, a nossa própria humanidade.

Entre Rio e Mar Há Lagoanas
Coletivo Heteaçã – AL
Teatro/60 min/16 anos
07/04, 19h, Teatro de Arena
Sinopse
Sobre as mulheres que crescem ao redor da Lagoa.
Sobre as mulheres que fomos, que somos e sobre as mulheres que queremos ser.
Uma Mulher nos conta a origem da Lagoa, as mudanças e como ela cresceu ali, Entre o Rio e Mar Há Lagoanas é uma fábula que recria o nascimento da Lagoa através do cotidiano e da memória de mulheres que cresceram as suas margens e dentro dela.

Serviços:
Palco Giratório 2018
Período: 01/04 a 07/04
Local: Maceió
Tel.: (82) 3201-1376
www.sescalagoas.com.br

24 dezembro 2016

CRÍTICA: Espetáculo "Volante" - Por Wanderlândia Melo

O Coletivo Volante
Espetáculo Volante-AL, Projeto SESC Palco Giratório 2016- Maceió- AL.
Por Wanderlândia de Melo Barbosa.

Resumo: O texto pretende entender o espetáculo Volante do Coletivo Volante sediado em Maceió Alagoas, que durante o Projeto Palco Giratório- SESC-AL foi convidado a representar o estado nessa programação de 2016. O texto também aborda uma síntese da trajetória do trabalho Volante. 

“De uma coisa eu tenho certeza, a gente nasce sabendo que 
vai morrer uma vez na vida, mas todo dia não.”
Volante, Coletivo Volante. 


Foto de Nivaldo Vasconcelos

Em 2014, em Maceió, produzindo o I Encontro de Palhaços de Maceió do Grupo Clowns de Quinta do qual atualmente faço parte, assisti um ensaio aberto do Volante espetáculo do Coletivo Volante com o ator Bruno Alves que também estava na programação, ensaio que o próprio Bruno Alves afirmava que era o primeiro trabalho do coletivo e também seu primeiro solo e que o espetáculo e ele estavam em processo de descobrir e experimentar possibilidades. 
Procurando o significado da palavra volante no Aurélio, descubro que: 1.V. voador. 2. Flutuante; ondulante. 3. Que pode mudar facilmente. 4. Transitório; efêmero. O Aurélio me traduz o que quero relembrar do ensaio aberto de 2014, para apresentação dois anos depois, no Projeto Palco Giratório 2016 edição Maceió- AL, entre esse dois anos pude assistir duas vezes esse espetáculo, onde percebo que o que foi alterado foi o cenário e consequentemente a encenação, o que antes possuía uma carroça enorme, na apresentação do SESC já não mais utilizada da forma que era. 
Para descobrir possibilidades para um espetáculo acredito que seja necessário praticar, e que se tenha oportunidade de experimentar em diversos espaços e/ou diversos públicos. E acompanhando o Coletivo com a ferramenta da página virtual e em conversa com o ator Bruno Alves, realmente foram diversos os espaços ocupados: Pátio, praças, quadras, beco e rua. 
Mas para edição do projeto, o SESC, dá um novo desafio a ser assumido pelo coletivo, ocupar um palco no modelo de Palco Italiano. E pela segunda vez o ator Bruno Alves declarou mais uma primeira vez, ter apresentado o espetáculo Volante em palco Italiano. 
Esse espetáculo tem três artistas, dois músicos e um ator, que juntos contam a história de um viajante, talvez um lunático, talvez um louco mas pra mim um poeta simples que nos vem pra contar suas história que verdade ou não foram vividas e isso já basta. 
A dramaturgia também de autoria de Bruno Alves, que relata que foi construída nas salas de ensaios e em ensaios fora de sala, onde os músicos com músicas, que não necessariamente está no espetáculo, foi um dos motes para a criação da mesma. 
Nesse percurso o personagem Severino, que não é Severino da rua de baixo, nem Severino de dona Maria só Severino, nos leva para lugares que hora está no passado, referente á história narrada, e hora nos traz para o presente, lugar do dialogo com a plateia. 
Caminhamos junto com Severino até o topo de uma montanha em busca do sol, para uma cidade de injustos consumidores de plástico; nadamos e provamos que precisamos repensar essa violenta maneira de querer resolver as coisas, com uma pecheira na cintura; e conhecemos Caetana que nem convidada foi, mas queria a desistência de quem acorda todos os dias na esperança de encontrar com a felicidade, que pode acontecer caso esteja em um baú em baixo de nós, mas como o enigma de encontrar a felicidade nunca é fácil então vamos evitando o encontro com Caetana. 
Entre o presente de Severino com o encontro com público e o passado historia narrada por ele é que encontramos em comum a música que antes mesmo de se tornar algo que complementar as histórias narradas, ocupando a pausa que há no silencio, ela é dialogo. O Severino enxergar os músicos e junto são cumplices, entre músicas e histórias narradas, chegam de povos em povos convencendo que aquilo tudo, aquelas prosas todas são verdades. 



A caixa cênica proporciona vários artifícios estéticos que por inúmeras questões que possa eu deduzir em relação á iluminação e o técnico, talvez o espetáculo (ou o iluminador, ou a produção do teatro), não tenham sido feliz em nos deixa sem ver o rosto de Severino, em momentos que o texto não era o suficiente, a música não era suficiente para falar o que o rosto de Severino nos falavam em meia luz. 
Existe um artista plástico chamado Bispo do Rosário, onde a estética do espetáculo me fez lembrar as obras dele, as cores. O figurino que me traz outras possibilidades de ser, a calça que ao avesso possibilita que outras linhas e costuras nos traga uma estética de não cotidiano. A personificação do mar, de Caetana que em cores opacas me leva aos lugares e a fantasias de forma confortante e bela. 
Espetáculo que aconteceu no dia 18 de abril no Teatro Jofre Soares, Maceió- AL ás 20:00, conquistando mais aliados para uma plateia de produções Alagoanas, onde de crianças a adultos, frequentastes ou não de casa de teatro, acredito que foi plantado uma semente para apreciações de produções locais, ou não locais. 


22 novembro 2016

Crítica: “Eu vejo a lua” – Um ator invisível em Volante

Por Gessyca Santos

Atrevo-me a começar de trás para frente, porque fiquei pelo avesso quando o assisti. E é dessa sensação que irei falar sem preocupação em expressar neste início de texto alguns aspectos informativos a respeito do espetáculo teatral Volante. Antes disso, escolho o vazio onde tudo acontece, onde a amplitude do espaço e tempo não nos deixa reduzidos ao real, mas nos engrandece nas irrealidades que nos fazem reais.

Foto de Nivaldo Vasconcelos

O começo era o fim e o fim era o começo. Aquela imagem sedimentou em mim. Era um rapaz de braços abertos, apoiados numa estaca de madeira que estava deitada sobre suas costas e enfeitada de fitas vermelhas. Ele vestia uma roupa com cor de tempo, desgastada e um pouco rasgada devido às suas aventuras de andarilho. Nele também existia um cheiro de mar e o vi transitar de água a passarinho num estalar de dedos. Pensei: Para realizar tal manobra, só com ajuda divina! Talvez por isso ele estivesse fazendo uma reza que tinha velocidade de furacão e temperatura de vulcão.
Com esse fragmento de uma existência efêmera, introduzo esta crítica que aborda o espetáculo Volante interpretado pelo ator Bruno Alves do Coletivo Volante, Maceió – AL, apresentado no dia 09 de março de 2016, às 20h, no Teatro Jofre Soares, integrando a programação da 19ª edição do Palco Giratório na etapa estadual do Sesc- AL. Direciono o meu olhar à força do imaginário em “Volante”, a qual tratarei também como caminho para a construção do que seria um “ator invisível”.
Com uma dramaturgia rica em detalhes, lugares e seres diversos, o espetáculo Volante aposta na simplicidade para nos fazer enxergar o invisível. Com o palco quase “vazio”, pude ver monstros, pássaros, mar, carroça, centauro, barco, janela... E tantas outras imagens. Pareciam mais concretas do que, talvez fossem, se estivessem reduzidas a elementos de cena que tentassem traduzi-las ou representá-las em sua complexidade. Pontuarei três signos que se metamorfoseiam durante o espetáculo, para desenvolver esta crítica, considerando o último pouco explorado em suas possibilidades de uso: composição cenográfica/adereço Caetana, tecido azul e bastão com fitas.
O que se vê ao centro do palco é o que considero uma composição cenográfica, composta por um espelho em formato oval, rodeado de flores, apoiado na parte superior de um apoio em vertical (bastão) coberto por um tecido fino, nos dando a sensação de tratar-se de uma figura feminina. Adiante, essa mesma estrutura é utilizada como um adereço, onde o ator utiliza-o a seu serviço, construindo uma espécie de mascaramento, uma vez que veste o espelho sobre sua face e se camufla entre os tecidos, nos trazendo a imagem da morte Caetana. Aqui, o ator some, não por estar camuflado, mas por se fazer invisível ao assumir outra qualidade de energia, movimento e voz, a meu ver, provocadas pelo mascaramento.
Uma rede de tecidos ligados um ao outro através de nós, de cor azul/ciano, vestia o corpo do ator para nos trazer a imagem do mar. Chamo atenção para um fator: Não era a representação do mar distanciada do corpo do ator, não se tratava de uma moldura ou um cenário fixo. O ator vestia o mar e aquele elemento utilizado já não era mais uma rede de tecidos, na relação com um corpo que se colocava em prontidão, comprometido com o imaginário, fazendo-se água, não poderíamos ver outra coisa se não o mar. O ator desaparece mais uma vez.
Do início ao fim do espetáculo, o ator utilizou um bastão onde apoiou os braços, logo se construiu a imagem do personagem em espantalho, não havia sequer um passarinho sobre os seus ombros, no entanto vi uma revoada! “O olho é a máscara e a máscara é o corpo” diz Lecoq, em Volante o olhar e o corpo do ator receberam esses pássaros em seus ombros e os viram voar, um corpo inteiro comunica por inteiro, então, neste caso estar utilizando o bastão/vara complementou a ação física, construindo a imagem do espantalho, mas a força estava na presença física do ator. Embora este elemento bastão, tenha sido bem utilizado em alguns momentos, como o citado, percebi ao longo do espetáculo que tal elemento se tornou um apoio, onde ora construía imagens, ora se tornava algo fixo, sem razão de estar ou limitado em suas possibilidades, talvez ele precisasse de mais descanso, deixando o corpo do ator fluir em diálogo com as particularidades de cada situação cênica. Considerar este ponto é abrir mão da imagem fixa de Severino com os braços presos ao bastão/vara.

Finalizo com um fragmento de Yoshi Oida. Em seu livro “O Ator Invisível” ele diz: “No teatro kabuqui, há um gesto que indica “olhar para a lua”, quando o ator aponta o dedo indicador para o céu. Certa vez, um ator, que era muito talentoso, interpretou tal gesto com graça e elegância. O público pensou: “oh, ele fez um belo movimento!” apreciaram [...] a exibição de seu virtuosismo técnico. Um outro ator fez o mesmo gesto; [...] o público [...] simplesmente viu a lua. Eu prefiro este tipo de ator: [...] O ator capaz de se tornar invisível.”

24 março 2016

Palco Giratório 2016 - Etapa Alagoas

   Recebi por e-mail o material com a programação do Palco Giratório aqui em Maceió.
   Dias 9 e 10 de abril "Volante" se apresenta no Teatro Jofre Soares às 20h.
    
   Programe-se!








Texto do e-mail:


        "De 4 a 18 de abril, Maceió se torna palco da maior temporada de espetáculos brasileiros promovidos pelo Projeto Palco Giratório, realizado através da Rede Sesc de Artes Cênicas – composta pelos departamentos Regionais e o Nacional. As apresentações são gratuitas, contando com a participação de grupos nacionais e local, tendo como cenários as Unidades Sesc, Salas de Espetáculos e nas ruas e praças públicas. O projeto contará com o apoio da Diretoria de Teatro Alagoas – Diteal e da Fundação Nacional de Artes - FUNARTE.

            Este ano a Capital recebe grupos de Sergipe, Minas Gerais, São Paulo e Amazonas. Além das parcerias com grupos do Rio de Janeiro e Recife. Artistas locais também foram convidados para compor a programação, além dos selecionados pela curadoria nacional do projeto. Já em Agosto o grupo que passa por Alagoa irá compor a programação da primeira Mostra de Artes Aldeia Sesc Arapiraca, na cidade de Arapiraca.

            A ação traz um cronograma voltado a diversos públicos. Com teatro adulto e infantil; dança; circo; e performance. Diversas histórias e motivações artísticas, um recorte importante da produção cênica brasileira a cada ano. Num total de 18 apresentações e 44h de oficinas, mesas redondas e momentos de interação onde os artistas compartilham técnicas e experiência"

15 março 2016

"Volante" no Palco Giratório 2016

   O Palco Giratório está chegando em Alagoas!
   Somos convidados do SESC-AL representando a cena local.

   Uma honra! 

   Muita alegria!

   Aguardem a programação completa do festival aqui em Maceió.

Divulgação SESC - AL

04 maio 2015

"Encontro Giratório" Movasse Coletivo de Criação (MG)

   
   Dançar ou não dançar, eis a questão.

Extraída da página do facebook Artes Cênicas SESC AL

  O grupo Movasse Coletivo de Criação (MG) trabalhou no dia de hoje (04-05) a Colaboração na Criação em Dança.
   Não sou bailarino, mas descobri que danço. Essas oficinas com os grupos de dança que estão passando por Alagoas pelo Palco Giratório do SESC me fazem entender que todo ser humano é um potencial ser que nasceu para dançar, basta querer descobrir e se empenhar.
   O grupo trabalhou a questão da observação dos movimentos e de como nosso corpo se porta diante da ação. Buscaram em nossas ações o desenvolvimento da qualidade do movimento e da objetividade na realização.
   Começaram a oficina querendo entender os nossos corpos e o que poderia extrair de cada um deles. Quando cheguei à oficina acontecia um movimento que parecia uma construção coreografia. Sou péssimo em coreografia, fico sempre preocupado com a execução e acho que sempre estou indo para o lado errado, mas vivenciar aquela experiência foi uma oportunidade de se permitir.
Foto extraida da página do Movasse Coletivo de Criação

   Depois o comando era correr em trio aumentando a velocidade e correndo de costas. Percebi que não observava a minha coluna e a intenção era correr com as costas e não ombros. Com a repetição fui entendendo e observando melhor essa questão. Realizamos esse exercício em dupla e tivemos que em diagonais diferentes encontrar nossa dupla, focar o olhar, girar e continuar correndo de costas até parar, descer e deitar no chão, subindo corretamente com um salto só.
   Houve um exercício no qual em duplas deveríamos manipular o corpo do nosso colega que responderia aos estímulos que dávamos com a força de nossa mão em alguma parte do corpo dele(a).
Extraída da página do facebook Artes Cênicas SESC AL
   Houve um exercício no qual na roda deveríamos buscar um corpo estranho. Dançar de uma forma que não costumávamos. Em seguida um ia a roda e dançava e o outro deveria entrar também na roda e construir junto com o que lá estava uma dança estranha na mesma energia.
   Em outro momento nos pediu para que nos movimentássemos do jeito que gostamos. Nessa hora me deu um branco e fiquei sem saber como eu gostava de me movimentar. Aos poucos fui me soltando e realizando os comandos de expandir e diminuir o movimento.
   Na segunda parte nos sugeriram que criássemos uma sequencia de movimentos obedecendo dez indicações: “Entrar em cena”, Correr, Deslizar na parede, Olhar para um ponto, Deslocar-se, Esconder-se, Pausar, Pular, Usar a voz de alguma forma e finalizar a sequência. Era preciso ser objetivo na sequencia. Apresentamos duas vezes e em seguida tivemos que escolher três movimentos de algum colega que nos chamou a atenção e usar em nossa ação no lugar de três das nossas escolhas. Iniciou um processo de limpeza do movimento e busca pela qualidade. Fomos divididos em dois grupos de 5 e 4 pessoas e deveríamos repetir várias vezes a sequência interferindo no caminho do outro, criando assim, um diálogo com o espaço, nosso corpo e corpo do colega.

Extraída da página do facebook Artes Cênicas SESC AL

   Foram poucas horas de oficina para entender o processo do grupo, mas o que deu para vivenciar me possibilitou entender mais do meu corpo e observa-lo enquanto realizo uma ação artística, buscando com isso um corpo vivo e uma presença plena no palco.

Bruno Alves

03 maio 2015

"Encontro Giratório" Catibrum Teatro de Bonecos (MG)

   
Foto extraída do perfil do grupo Catibrum T de Bonecos
    Teatro de Bonecos não é um ofício fácil.
   Começo esse texto ressaltando isso, porque vivi na pele, na mente e no osso o processo de criação e preparação do Grupo CatiBrum Teatro de Bonecos de Minas Gerais.
   O grupo existe há vinte e quatro anos e desde então vem desenvolvendo um trabalho importante e fortalecedor do teatro de bonecos no Brasil.
   A oficina que aconteceu pelo Palco Giratório no circuito do SESC AL ocorreu nos dias 02 e 03 de maio e teve como instrutores uma parte dos membros do grupo: Rooney Tuareg, Camilla Borges, Beto Militani e Leandro Marra.
   Iniciamos no sábado com uma roda de apresentação das pessoas que vivenciariam a experiência. Entendemos da história do grupo e da história das pessoas envolvidas. Evidenciamos ainda a nossa curiosidade e necessidade de conhecer mais sobre esse universo.

Foto extraída do perfil do grupo Catibrum T de Bonecos

   “O importante são as perguntas”, dizia Beto nos incentivando a vivenciar todos os momentos e seguir com as perguntas que nos movem, mesmo que as respostas demorem ou não apareçam.
   O primeiro jogo proposto pelo grupo foi um que envolvia concentração e coordenação motora. Trabalhamos em círculo o passar e receber das energias da roda através de estímulos sonoros e corporais.
   Tivemos um momento em que Beto realizou um alongamento de preparação do nosso corpo. Iamos dos pés a cabeça acordando, alongando e deixando o corpo alerta. “CORPO ALERTA” tornou-se palavra de ordem. Nesse exercício foi possível destacar o cuidado que ele observou que devemos ter com os nossos pés e a importância de dar mais atenção a essa parte do nosso corpo. São eles que sustentam a nossa casa e precisariam ser alongados, já que em parte do tempo comprimimos dentro de um sapato que tenta dar uma nova forma a eles. Enquanto, Beto ia dando as instruções os outros facilitadores se aproximavam e nos ajudavam a corrigir a postura do nosso corpo. Era preciso preparar a coluna, as pernas, a região da pélvis... Era preciso estar alerta.
   Era notável no corpo a diferença causada, a dor que surgia em algum lugar e o incomodo com parte dos alongamentos. Meu corpo certamente estaria estranhando aquela nova informação que recebia. Orientou-nos a sempre deixar pelo menos vinte segundos alongando cada parte, pois seria tempo do corpo processar a informação.
   Rooney seguiu a nossa preparação trabalhando questões da respiração diafragmática e do aquecimento vocal. Preparamos o rosto, a articulação da boca e em roda fizemos exercícios sonoros.
   Camilla continuou a preparação trabalhando pelo espaço os movimentos diferenciados dos nossos pés em contato com o chão. Propôs-nos um exercício de respiração que exigia muito esforço corporal. Dava para sentir de bruços em contato com o chão o esforço que nosso corpo fazia para expandir o ar na região diafragmática, enquanto tínhamos pés e mãos suspensos.
   Leandro realizou um jogo em trio, no qual tínhamos que encaixar nosso movimento na imagem construída pelos nossos companheiros, desde que não fechássemos a sua possibilidade de deslocamento, porque sairíamos da imagem paralisada a cada comando individual que ele indicasse.
   Mas onde estavam os bonecos?
  Nós que pensávamos (pelo menos eu pensei) que assim que chegássemos entraríamos em contato com eles, tivemos que entender que para se chegar à ação era preciso preparar o corpo, a voz e a mente. De repente, Leandro aparece com um boneco pequenino em suas mãos. Aquela imagem começa a mexer e me envolver numa fantasia que não entendia. Estava acreditando naquela ação. O boneco que Leandro utilizava era feito com luvas, apenas as luvas sem nenhum detalhe ou adereço. Fiquei encantado com aquela transformação e animação daquele objeto, agora transformado em boneco.
   No fim da tarde tivemos o primeiro contato com os bonecos. Estes eram feitos com tecidos e amarrados com barbante nas pontas formando as mãos e pés e no meio das mãos um nó que formava a cabeça/nariz. Rooney alertou para que tivéssemos atenção com o nariz, pois esse seria os olhos do boneco. Trabalhamos a questão do foco, dos direcionamentos que o nariz indicava e a questão do eixo para deixar o boneco em pé. Leandro indicava em nossa frente direcionamentos.

Fotografia de Claudete Lins

   No dia seguinte, após o processo de alongamento corporal e vocal de Beto e Rooney, voltamos a entrar em contato com os bonecos de tecido. Deveríamos criar uma história com ele. Esse boneco era animado por três pessoas, um ficava com a questão do eixo (cabeça e coluna) e os outros animavam as mãos e pés. No segundo contato com esse mesmo boneco fomos criando uma melhor desenvoltura, pois os facilitadores da oficina alertavam que o segredo está no ensaio, na repetição e na busca pela precisão dos movimentos. Dessa vez ficamos na frente do espelho, mas como já havia sido orientado não era uma boa opção, pois nesse caso o espelho atrapalha, porque a atenção deve ser voltada para o boneco. 

Foto extraída do perfil do grupo Catibrum T de Bonecos

   Apresentamos ao grupo, fomos avaliados e avaliamos a desenvoltura dos nossos colegas. O grupo fazia suas considerações a respeito das apresentações das cenas curtas. Esses momentos de avaliação foram ricos em debate sobre dúvidas que trazíamos.
  Na última parte da oficina fomos apresentados aos bonecos articulados do grupo. Esses bonecos eles produziram para exercício durante as oficinas, mas sua estrutura parte do mesmo principio com os quais eles produzem seus bonecos em muitos espetáculos, inclusive “O som das cores”. 

Fotografia de Claudete Lins

   Visualizei um trabalho artesanal rico em acabamento e detalhes. Esse boneco tinha as articulações do corpo bem trabalhadas e possibilitariam um maior trabalho e precisão nos detalhes das ações.
   Tivemos contato com eles e em trios tivemos que entender seu funcionamento em nossas mãos. Era diferente, porque agora tínhamos uma figura que representa o ser humano e assim, o cuidado na execução só aumenta. Roney nos falava que é preciso acreditar no que está fazendo para que o público entre junto na viagem. Ele ficava na frente dando os direcionamentos para que fizéssemos juntos o boneco ganhar vida.
   Foi a parte mais difícil da manipulação. Executar detalhes humanos como: sentar, ajoelhar, coçar, dentre outros, não foi fácil. Passamos no grupo que participei maior parte do tempo entendendo como fazê-lo ajoelhar. Falando pode parecer fácil, mas em grupo e tendo o cuidado nos detalhes não se torna fácil. É uma tarefa que exige uma prática constante.
   Apresentamos, avaliamos, fomos avaliados e partilhamos da gratidão pelos dias vividos.
  Essa oficina foi uma experiência muito importante para entendermos que a manipulação direta exige muito trabalho do ator e atriz e que a base dessa criação é comum em todo o fazer teatral, como a questão da preparação corpóreo-vocal.
  Outro ponto que não esquecerei foi visualizar e vivenciar as possibilidades que existem para a manipulação. É possível tornar uma luva ou um tecido em um boneco, basta à prática e o cuidado com os detalhes. São importantes os detalhes, pois às vezes um coçar as costas do boneco torna a cena de uma beleza inacreditável, porque parece que quando assisto um boneco estou procurando e acreditando na imensa humanidade que ele carrega em si ou que na ponta dos dedos que o carregam e na força dos braços ele é carregado cheio de vida e energia que o faz vivo, mágico e encantador.
   O momento agora é de se perguntar, refletir e processar as informações recebidas e talvez a primeira pergunta que se estabeleça em minha cabeça já seja sobre as inúmeras possibilidades de manipulação de bonecos que possam estar bem próximas de mim.
   Esses momentos nos ampliam a visão sobre o fazer teatral, sobre a prática dos grupos e sobre as possibilidades que nos cercam.

Foto extraída do perfil do grupo Catibrum T de Bonecos

   Catibrum Teatro de Bonecos apresentará amanhã seu espetáculo “O Som das Cores” no SESC Centro às 20h e parte em seguida para mais uma etapa do Palco Giratório pelo Brasil. Ficam aqui conosco e em cada trabalho que viermos fazer daqui pra frente, porque o que foi compartilhado dentro da sala da oficina é processado e utilizado ao longo da vida e prática teatral, assim a gente queira. Assim eu quero, assim eu acredito.
Voltem sempre por aqui!


Gratidão! 

29 abril 2015

"Encontro Giratório" Núcleo Atmosfera - NUA (MA)

   Ele não queria saber o nosso nome.
   Levei um susto ao ouvir isso.
  Não poderia ser verdade. Seria arrogância? Não poderia ser, porque  ele tem uma áurea cheia de luz e queria muito mais da gente.
   Era preciso não se dar um nome.


Foto retirada da página Artes Cênicas SESC AL


   Assisti a “Divino” no dia anterior a oficina “Corpo Emaranhado”(dias 28 e 29 de abril) do Núcleo Atmosfera – NUA, (MA). Fiquei encantado ao ouvir os tambores tão vigorosos das Caixeiras do Divino. Que tambor forte! Parecia um convite para deixar a alma sair.
   O NUA possui um trabalho que envolve muito a questão do ser espiritual e da ancestralidade.
   “Nossas mãos curam” ele falou e pediu que de olhos fechados dançássemos com as nossas mãos curando o nosso corpo.
   “O que for ruim tira do teu corpo e enterra na terra”, ele ensinou.
   Ele nos pedia para visualizar a terra enterrando nossos corpos e éramos a partir dali “larvas” vivenciando o solo e experienciando sair. Visualize, ele frisou. Era preciso ir além da imaginação, tinha que vê a coisa toda acontecendo.
   Ele pediu que fossemos saindo dessa terra, tocando o chão com as mãos e os pés e aos poucos despertando  até encontrar o homo sapiens do nosso corpo.
Caixeiras do Divino. Foto retirada da página Artes Cênicas SESC AL

   “Todas as danças que hoje existem nascem das danças ancestrais, da terra”(e aqui eu estou tentando reproduzir as falas que ele ia dançando em nossos ouvidos).
   Ela, sua companheira de cena e oficina, nos trouxe o boi do Maranhão e ensinou uns passos para a gente. Eu não sabia como me sair, parecia estranho, mas ao mesmo tempo parecia tão intimo da gente.
   “Descubram que dança surge no corpo de vocês a partir desse boi” ele encaminhou.
   Começava a surgir a nossa dança. O encontro com a terra, com o boi e com o som das caixeiras do divino fazia a gente ter uma experiência pessoal com a dança, como uma criança que volta ao ventre da mãe. Estávamos voltando para o que é nosso, porque não foi difícil encontrar entre as danças que surgiam linhas do nosso Guerreiro,Reisado, Coco de roda... Lembrei por muitos momentos do Mestre Bia e sua banda de Pífano pelas ruas de Viçosa, minha terra natal.

Foto retirada da página Artes Cênicas SESC AL

   Todos foram ao círculo e dançaram o que havia surgido a partir do boi. Eu que não sabia o nome ou a história da vida de algumas daquelas pessoas, começava a identificar através da força /leveza de seus movimentos um universo que seria só dela e que a dança permitia que acessássemos.
   Foi momento de se emaranhar. Num único espaço deveríamos continuar o nosso movimento, no meio do movimento dos outros. Estávamos misturados, emaranhados de terra, ar, fogo e água.
   Era momento de explorar mais essa experiência.
   No segundo dia as caixeiras do divino tocariam uma música única para cada dança que elas viam nascer no dia anterior. Começamos a criar o que ele chamou de “Tubo” e uma pessoa ia à frente, começava sua dança e os outros acompanhariam esse movimento, criando uma sintonia, um tubo de movimentos individuais que traziam uma nova dança coletiva.

Foto retirada da página Artes Cênicas SESC AL

   Finalizamos o momento da oficina.
   Em círculo, ele se apresentou, falou sobre sua história de vida e abriu a roda para que falássemos de nós. Sabíamos muito um do outro. Ele nos reconheceu através da dança e falou que o tempo todo estávamos revelando mais que o nome.
   Ele se chama Leônidas Portela, sua amiga é a bailarina Marina e as lindas e dóceis caixeiras do divino se chamam Roxa e Gracinha.
   O Núcleo Atmosfera foi ao fundo. Percorreu o fundo da terra e suas camadas mais distantes. Situou o nosso corpo nesse espaço e nos lembrou que somos todos um só nesse universo.
   Estávamos todos protegidos na atmosfera de uma dança de nós mesmos.

   Gratidão!