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06 outubro 2016

Teatro para tempos difíceis

Há um tempo venho precisando de recomeços. Esse ano de 2016 não está sendo fácil. Desde o começo dos protestos de rua e os batedores de panela verde-amarelo eu vi pouco a pouco tanta coisa sendo destruída nesses poucos meses.

Um governo ilegítimo tira de nós cada vez mais a dignidade. Uma mídia golpista faz descer goela abaixo as “verdades” que “devemos” defender. “Não está sendo fácil” diz a canção.

O pior de tudo isso é a imobilidade que me toma na maior parte do tempo. Olho pra dentro de mim, olho ao redor e me pergunto: “O que fazer?”. Não tenho respostas. Não sei responder. Não sou politizado o suficiente para soltar todo esse grito contido, mas o pouco que sou e que vi e aprendi ao longo da vida me faz afirmar para mim que eu não vou por aí.

Resistir é palavra que acende no peito. Re-existir é a necessidade que brota a cada dia com tantas desilusões e sonhos sendo atacados cotidianamente.

Fiquemos juntxs


Só posso responder com teatro. É a certeza que tenho desde quando tinha 16 anos e fiz minha primeira oficina e que desde então nunca parei. Eu, todos os dias, desde os 16 anos, penso em teatro e falo a palavra teatro todos os dias. Essa relação vai se firmando, vai se fortificando, vai florindo, enquanto algumas folhas insistem em cair.

 Só posso responder a vida com teatro, volto a dizer.

Observei muita coisa pela internet. Que mundo cheio de tempestades esse do facebook. Acordo sabendo que uma nova notícia ruim vai aparecer e aparece. Não é culpa das redes sociais, elas são ótimas e importantes no nosso tempo. É culpa desse tempo desencontrado que a gente vive. É culpa dessa falta de tempo para perceber e respeitar o outro.

O ser humano é falho. Disso eu tenho certeza. O ser humano é cruel quando quer ser. Essas eleições que aqui vivemos me fez repensar meu tempo no interior, a busca por um ideal de cidade melhor, a incompreensão na maior parte do tempo, o desprezo, o abandono. Quando olho para lá lembro de um tempo bom e até ingênuo perante essa máquina que rege tudo. Hoje por lá as pessoas em sua maioria se mostram como sempre foram, pulando de um lado para o outro na busca pelos seus próprios interesses, mas tudo bem, isso agora não me cabe e não posso mudar. Eu posso fazer teatro. Isso eu sei que posso. O teatro nunca me abandonou, permanecemos um do lado do outro, com nossas crises comuns em todos os relacionamentos, mas eu o escolhi e eu o amo.

No dia 23 de setembro Rayane e eu realizamos pelo Festival de Teatro de Alagoas – FESTAL a oficina de Contação de Histórias: “A história que há em mim, me leva a contar”. Foram quatro horas de aprendizado e a proposta da oficina é ouvir histórias, essas que existem em cada pessoa que estava presente e que mexe com suas memórias e relações até hoje. Para contar outra história é preciso revisitar as nossas primeiro, esse é um dos princípios que acreditamos.

A vivência na oficina me fez perceber muita coisa. Terminamos em lágrimas. As lágrimas eu não esperava, mas elas vieram por que precisavam contar alguma coisa.

Saí da oficina com o coração cheio de luz e esperança. Estava ali uma das respostas para tantas questões: A gente precisa contar a nossa história para que os que chegam depois não a engulam, não a façam parecer que nunca existiu, porque é assim que a gente vive hoje ou pelo menos os golpistas querem que a gente viva, como se não tivéssemos tido uma história.

Em abril desse ano Rayane e eu começamos a montagem do nosso novo espetáculo. Um infantil. Tivemos encontros, ensaios, leituras, mas tudo foi se engolindo por esse tempo estranho. Não desistimos da peça. Ela vai voltar no tempo dela, mas a necessidade que vinha gritando em meu peito era de responder a isso tudo. Como eu não sei ou não sabia. Passei muitos meses estudando sobre loucura, porque via nela uma saída para essa realidade que vivemos. Passei semanas refletindo sobre a ansiedade que toma conta dos nossos dias...

Essa semana depois de muito rabiscar papel surgiu uma provocação inicial. Levei para Rayane ler. Conversamos pouco no dia de hoje, mas ela já entendia o que aquilo queria dizer. Diferente de “Volante” que sai pelo mundo, agora a gente quer falar sobre a imobilidade, sobre o não conseguir sair do lugar, não saber o que fazer, não saber como enfrentar o inimigo. É um começo. Pode nem ser isso daqui pra frente, mas dentro de nós já começou.

Evoé!

Antes de terminar essa postagem uma amiga me marca no facebook numa noticia em que os deputados (que dizem sim “por deus, pela família, a moral e os bons costumes”) acabam de protocolar no dia de hoje um decreto para barrar o decreto que dá direito as pessoas transexuais de terem seu nome social. São tempos difíceis. Preciso ir pra rua. Preciso fazer teatro.

Outra coisa: A peça "Se os tubarões fossem homens" da Cia Ozinformais está em cartaz na nossa cidade. É um grito de esperança. Assistam.

Boa noite e 
FORA, TEMER!

Bruno
Abaixo registro da oficina pelas lentes de Thiago Sampaio (Cia do Chapéu)





17 maio 2016

Recomeços e Continuidades - Em processo/2016


Registro de Nivaldo Vasconcelos
Hoje Rayane e eu retomamos um processo que ficou guardado nos últimos meses.
Dia de reencontrar as possibilidades e se permitir recomeçar.
Foi dificil recomeçar, porque nos últimos meses tenho buscado entender a identidade do coletivo, seus objetivos, sua linguagem dentro desse universo todo. Mas as respostas não são necessárias agora, as perguntas são fundamentais.
Cada coisa no seu tempo. E em tempos dificeis a gente busca uma viagem pela nossa aldeia.
Foi dia de respirar fundo e dizer: vamos lá!
De pandeiro na mão e pés amolegando esse chão duro a gente vai se descobrindo e se permitindo, devagar, com cuidado, em silêncio e com muito barulho às vezes.

Beijo
B.

15 março 2016

"Volante" no Palco Giratório 2016

   O Palco Giratório está chegando em Alagoas!
   Somos convidados do SESC-AL representando a cena local.

   Uma honra! 

   Muita alegria!

   Aguardem a programação completa do festival aqui em Maceió.

Divulgação SESC - AL

18 março 2015

Volante somos nós

São dos olhos, mãos, corpos e corações pulsantes dessas pessoas que nasce o espetáculo.



Bruno Alves - Dramaturgia e Atuação


Felipe de Alencar - Música Original


Elton Nascimento - Música Original


Rayane Wise - Maquiagem

Nivaldo Vasconcelos - Fotografia,
 e em conjunto com Bruno Alves assina os adereços e figurino.


Nathaly Pereira - Provocação Teatral






22 novembro 2014

Ensaio (de coração) Aberto

Todas as fotografias desse ensaio são de autoria de Nivaldo Vasconcelos.

Era a primeira vez que eu abria a porta da sala de ensaio.
Não dormi direito no dia anterior.
Coloquei o alarme para acordar cedo e acordei mais cedo do que o programado.
Era como abrir uma gaiola para mim.
Era a minha primeira tentativa de voo num solo (desconhecido?!).
Ao redor eu tinha pessoas queridas, pessoas que riem e fazem rir.
Estava eu no "I Encontro de Palhaços de Maceió", organizado pelo grupo Clowns de Quinta, que aconteceu do dia 19 ao dia 22 de novembro.
Meus companheiros de cena não puderam comparecer ao ensaio por questões de agenda com outros trabalhos, mas eu precisava estar perto dxs amigxs para abrir o meu coração transformado em cena. 
Precisava falar sobre as limitações e potencialidades do espetáculo. Precisava dos olhos atentos e dos corações abertos.
Era um ensaio sem adereços, cenário e figurinos finalizados, mas era um desenho do que será.
A recepção me sensibilizou. Passei todas as cenas do espetáculo durante o ensaio,falei das inspirações iniciais e da busca pelo entendimento e criação de novos signos.
Ouvi ao final depoimentos e inquietações.
Só tenho a agradecer aos Clowns de Quinta pelo convite, acolhimento e cuidados que me proporcionaram naquela manhã do dia 21.
Quero agradecer ao Nivaldo Vasconcelos pelas fotografias e partilhas na confecção dos adereços.
Rayane Wise pelo cuidado e carinho em estar concebendo a maquiagem.
Agradeço a Pam Guimarães pelo registro audiovisual do ensaio.
A todas as pessoas que compartilharam as sensações e inquietações comigo nesse dia tão especial. 
Não esquecerei cada palavra! 
Voltei para casa feliz pelo primeiro passo. Primeira tentativa de voo.
Pela noite eu tinha uma sensação de segurança não vivida há muitos meses.
Eu olhava para a rua chuvosa e finalmente me dizia:
"Estou em Maceió".






Rayane Wise começa a conceber a maquiagem.







































18 novembro 2014

Se avexe não

A primeira vez que ensaiei com a carroça, inicialmente pensada, levei um susto, porque era outro espetáculo que eu descobria. Aquele corpo falante precisava agora descobrir uma nova forma de se comportar num espaço quadrado. Um corpo mal comportado num espaço “ilimitado” de desejo.
Foi uma forma diferente de observar a construção feita ao longo dos meses.
“É um corpo de velho?”,  “É uma voz diferente?” me perguntava o Vitor.
Não, não é! Volante usa tudo de mim. É a minha voz e o meu corpo descompensado trombando em palavras que se espalham e explodem no ar como bolhas de sabão.
Eu estou querendo dizer. 
Fotografia de Nivaldo Vasconcelos

São quase oito meses de gestação e com nove a gente sabe que nasce a criança, mas não dá para ter pressa, não pode ser prematuro. “A pressa é inimiga da perfeição” eu pensava quando saia da Loja das Bugigangas, local que construi a carroça, pensando e entendendo que esse ditado é velho e certeiro. Na minha pressa e necessidade de ter a carroça eu errei. Tive uma carroça que na prática tornou-se inviável.
“Isso não parece uma carroça, parece um quadrado” dizia o Felipe de Alencar.
O meu quadrado/carroça, a minha carroça quadrada era a minha forma quadrada, enquadrada de ver o mundo naquele momento.
Sem pressa! “Se avexe não! Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada!” diz a canção.
“É que gestação não é um momento totalmente feliz. Embora a grávida esteja feliz, ela tem os olhos tristes” dizia o Paulo Vitor para me acalmar e me deixar menos ansioso.
Esperar me deixa com olhos tristes de grávida.
Quando nada acontece é terrível. Um dia eu resolvi assumir o volante da minha vida e disse a mim: “Eu vou fazer e usar o que eu tenho”. Eu me digo isso todos os dias, porque tenho medo do aborto e por que nessa vida eu já abortei.
Um amigo me falava de egoísmo há quase um ano. E me dizia que acreditar no que se quer deve ser um ato “egoísta” necessário.
“É como se você adivinhasse o não antes dele chegar”, dizia para mim o Nivaldo, mas é que o “não” esteve tão presente no último ano que quando o “sim” aparece eu desconfio, fico meio “Tomé” querendo colocar o dedo na ferida.
No inicio a sala era fechada nos ensaios e aos poucos com o entendimento do processo a gente foi abrindo para os amigos.
Mas eu precisava nesse processo “Matar o mestre, o pai, a mãe...”, “cortar o cordão umbilical” como me ordenava o querido mestre Ronaldo Aureliano.
“Vai levar tapa na cara da vida” me dizia seu Bolero, um poeta da Viçosa, me ordenando a acreditar e me jogar sem medo.
Felipe e Elton foram as surpresas da minha vida nesse ano de 2014, mas eu preciso contar uma coisa... Eu sempre imaginei estar com o Felipe desde o primeiro dia que pensei nesse espetáculo, mesmo a gente se vendo tão pouco naquele momento. Depois ele me trouxe o Elton que é tão doce e tem um olhar tão sensível que eu fico querendo ouvi-lo falar sempre para aprender a música que ele traz nos olhos.
Essa semana bateu tristeza. O parto se aproxima e tem que ser natural... Não tinha figurino, maquiagem e cenografia.  Eu não sei costurar, mas um dia Lael Correia e Acioli Filho me disseram da necessidade de saber fazer, de tentar e experimentar. Mergulhei nessa lembrança e fui cortando tudo que vi de tecido pela frente e encontrei muita coisa no lixo para o caminho que se revelou para o figurino. Já temos uma concepção do figurino! Tenho também a disponibilidade e boa vontade da Ticiane Simões para me ajudar a finalizar o figurino.
Depois me vem Rayane Wise e embarca nessa carroça com sua concepção de maquiagem que já me faz querer no rosto. Mandei uma mensagem para ela pedindo ajuda, socorro e salvação e ela afetuosamente me atendeu. Encontro com Carlos Alberto Barros que me diz que vai defender o projeto do espetáculo para conseguir pautas no teatro.
Aparece Roberta Aureliano que há dez anos me oferecia a minha primeira experiência com teatro em uma oficina na cidade de Viçosa – AL, desde então, nunca parei de fazer teatro. Roberta sabe da importância desse espetáculo em minha vida, sabe que é o cordão umbilical que seu pai me pedia para cortar, sendo jogado no mar, no rio, na vida que bate no rosto. Ela vai até Edner Careca e pede para mim uma luz. Telefona e cria uma ponte com Paulo Cesar Frazelly que abraça o desafio de cuidar da cenografia.

Ai gente! Eu estou mais calmo, porque na hora certa tudo se encaixa, tudo acontece, inclusive nada. Vou seguir a semana sabendo que a gente sempre pode contar com os amigos, mesmo aqueles que pareciam estar distantes e que teatro se faz com gente.